sábado, 3 de dezembro de 2016

Cuidado com a sensação de vitória antes do final da partida

Os serões em família passados em frente à televisão têm o condão de trazer paz e calma ao final de um dia stressante, mas também podem potenciar um tão acalorado debate de ideias que faz parecer o "Prós e Contras" uma troca de mimos azeitada entre um casal que iniciou uma relação amorosa há um quarto de hora. Por norma, em minha casa envereda-se pela segunda opção. Demasiada carne vermelha, dirão muitos. Eu apenas digo: o limite é o contacto físico que o árbitro possa sancionar com cartão vermelho. Até aí, vale tudo.
Ora se a pólvora anda danadinha para saltar fora do barril e entrar em auto-combustão, mais fácil fica ainda quando a discussão gira em torno de uma figura que não é consensual. A propósito do lançamento do seu novo livro, Ricardo Araújo Pereira concedeu uma entrevista a Vítor Gonçalves na RTP3, que considerei muito rica, dada a variedade de temas abordados e ao superior intelecto dos dois interlocutores. Acontece que sou o único fã de RAP aqui em casa e a manifestação de desagrado por vê-lo a ocupar espaço num canal público ganhou forma na voz da minha mãe. Podia ser na voz de Pavarotti, mas ele já morreu e tínhamos aqui um caso paranormal assustador que só poderia ser resolvido com recurso aos dons do professor Alexandrino. Assim foi melhor:
- Não gosto deste gajo. Nunca gostei.
Levantado que ficou o meu sobrolho com a observação, resolvi aprofundar a questão:
- Ah, não? Então porquê, mãe?
- Não sei... - respondeu ela com ar de desprezo, corrigindo a vagueza da primeira resposta com um peremptório... - Acho-o parvo!
- Hum... Então e qual é o humorista que aprecia? - quis eu saber.
- Olha, gosto daquele grandalhão...
Eu sabia a quem se referia, é claro, mas quis retaliar pela falta de respeito que tinha tido por um dos meus ídolos uns segundos antes:
- Quem? O Badaró? Esse já morreu, mãe...
- Não é nada o Badaró! É o... é o...
Ai quiseste achincalhar o grande RAP? Então agora vais ver como elas te trincam no lombo! Não dando margem para assomos repentinos de memória fresca que a salvassem, voltei a carregar:
- O Fernando Mendes? Esse não é grande, mãe. O cu dele é que é maior que a lua cheia, mas ele é baixito...
Já esbaforida, a minha progenitora deixa os olhos subirem para o tecto (não de uma forma literal, claro. Números de faquir não são compatíveis com senhoras habilidosas na confecção de arroz de marisco) e eu começo a esboçar aquele sorriso triunfal de quem se vê a vencer a contenda. Faltava dar a machadada final:
- Também não é esse, pois não? Ah, já sei! É de mim que gosta, não é?
A senhora dona minha mãe respira fundo e solta a revelação:
Não, filho. Também não é de ti...
Da próxima vez que se depararem com um acto que vos pareça tresloucado, perpetrado por alguém que vos pareça um genuíno psicopata, tentem não tecer juízos de valor mal amanhados. É que por detrás dessa loucura aparente pode existir um forte catalisador para a despoletar. Pode haver uma... Está quieto, Óscar! Desculpem lá, este cão anda impossível! Então não estava mesmo agora a lamber o gatilho da minha Kalashnikov? Bem... Onde é que nós íamos mesmo? Ah, sim! Malta que vocês acham parecidos com o Hannibal Lecter, não era?

25 comentários:

  1. Omg ahahah muito bom

    Beijinho
    The-not-so-girlygirl.blogspot.com

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    1. Muito obrigado, girl ;) Volta sempre! Beijinhos

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  2. Parece a minha relação com a minha mãe. Temos sempre opiniões super diferentes e as "discussões" são capazes de durar horas. Duas teimosas é o que dá.

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    1. Portanto, temos que ver as coisas por este prisma: não há más mães, nem maus filhos. Há uma teimosia do caraças que não deixa pedra sobre pedra =P Sê bem-vinda ;)

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  3. Toma lá, para a próxima não te armas em esperto com a tua mãe :p

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    1. Até que me lembre desta, não... A sorte é que a memória é curta =P

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  4. Quando me diziam o mesmo do Herman, eu matava a conversa com um:
    - Pois, ele tem um tipo de humor inteligente que não é de fácil compreensão. eheheheheheh

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    1. Cá está: chama-se a isso fazer o golo com um toque simples. Eu ponho-me com toques artísticos e rodriguinhos e acabo por perder a oportunidade de marcar =P

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  5. Ui! Acho que me vou daqui de mansinho que isto de ter uma Kalashnikov em punho é para lá de muito perigoso, vamos que te dão os nervos eheheh

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    1. Não te vás daqui embora sem uma prenda minha: ra-ta-ta-ta-ta-ta! ?P

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  6. Ahahah, muito bom! Respeitinho é muito bonito e a mãe gosta! =)
    Beijinhos

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    1. A mãe gosta e o filho lixa-se! =P Beijinhos =)

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    2. Relação de causa-efeito! =) Beijinhos

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    3. Ah, bom! Estava à espera de um "cada um tem o que merece!" =P

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    4. Também é verdade, mas eu deixo os julgamentos para o meu blog que ele sabe bem como tratar as pessoas! Ahahah =)

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    5. Se o teu blog continuar tão afinado nos juízos de valor que tece sobre os seus visitantes, qualquer dia não tens lá ninguém! Não o domestiques, não! Olha que é um bom conselho de amigo... =P

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    6. Bom, sinceramente acho que é só contigo que ele tem semelhante comportamento! Portanto é uma questão pessoal.. o que me deixa deveras preocupada. O que é que tens com ele?

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    7. O que é que eu tenho com ele? E eu agora sou obrigado a falar da minha intimidade? Olha agora! E se eu te dissesse que tivemos um caso ainda antes de tu seres dona dele? Era uma coisa jeitosa, não era? =P

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    8. Um caso prévio á minha ligação com ele?! Bom, se assim foi, espero que já tenham cortado todas as ligações possíveis e imaginárias...

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    9. Quanto a ligações no presente, fica descansada. Não sei é como vais lidar com a sensação de não teres sido a primeira para ele... =P

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    10. É duro, muito duro... mas eu hei-de desenrascar-me!

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  7. LOL guarda lá isso que tenho uma coisa pa te contar...
    Eu já apreciei mais esse senhor, na altura dos Gato Fedorento, não é que desgoste dele, mas falta ali qq coisa...
    Será que o grande que a tua mae se referia, era o Raminhos??? Opa, eu desse gosto :p

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    1. Estás a pedi-las, estás! =P Não, eu concordo. Os outros três emprestavam qualidade ao trabalho do grupo. Podiam não ser tão bons na interpretação, mas escreviam muito bem e o sucesso do RAP deveu-se bastante ao trabalho dos outros. Olha, eu estive convencido até agora que era o Nogueira, mas és capaz de ter razão. Vou perguntar-lhe =P

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  8. opá ri-me muito xD mas tens que perceber que nós, filhos, nunca sabemos nada. quando a mãe diz, é assim e pronto! nunca vale a pena tentar contrariar. no teu caso é com o RAP, no meu é com a hipertensão "ah e tal eu posso comer chouriço sim senhora, tu ainda és só meia enfermeira, não sabes nada" "mas mãe, há factos e os meus professores é que me ensinaram" "oh, não chateies"
    enfim, coisas da vida :p
    beijinhos, Noelle :) http://supergirlinconverse.blogspot.pt/

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    1. Ai, riste-te? Então paga o que deves =P
      Realmente, os nossos pais são pessoas cheias de verdades absolutas e nem a demonstração prática de que temos razão serve de alguma coisa. Teimem, senhores, teimem! Chouriço para a frente, que é bom para a hipertensão e faz maravilhas pelo sistema digestivo =P Beijinhos

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Se vêm para contestar, fiquem quietinhos e caladinhos. Isto não é minimamente democrático e quem manda aqui sou eu! Por isso, só são permitidos afagamentos de ego, mas com jeitinho! Demasiada fricção deixa-me o pelo eriçado, tipo gato assanhado. Não é bonito!