Mostrar mensagens com a etiqueta Crónicas de uma vida anormal. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Crónicas de uma vida anormal. Mostrar todas as mensagens

segunda-feira, 9 de abril de 2018

Dramas familiares antecipam grandes carreiras?

A minha sobrinha-pirralha (cada vez menos pirralha, mas ainda minha sobrinha) tem o terrível defeito de abarbatar tudo quanto é moeda que esteja no seu campo de visão. Mais: se não estiverem no seu campo de visão, ela faz com que estejam, já que vai em busca delas em carteiras, porta-moedas, mealheiros, açucareiros (que é?, nunca ouviram dizer que o dinheiro é doce?) e todo o objecto que possa servir para acumular o vil metal.
A última das vezes foi no dia de ontem, quando assaltou a carteira da irmã mais velha e sacou de lá uma moeda de 2€, escondendo-a depois sabe o Belzebu onde. Assim que se deu conta do crime, os inspectores da família (vulgo pais) iniciaram o interrogatório à suspeita. Obtendo apenas silêncio como resposta, depressa assumiram o papel de juízes e decretaram a prisão preventiva da criança, comutando a pena para uma tarde de castigo no quarto que seria suspensa assim que a pequena delinquente confessasse o delito de gamanço à escala nano. Medida que resulta com todas as pestes de palmo e meio, certo? Certo. Só que esta é uma peste ainda mais retorcida e preferiu cumprir a pena a confessar o crime e a ter de devolver o produto do roubo.
Não sei se me assuste ou se me declare feliz com os talentos para palmar, esconder e resistir à confissão do roubo que a pirralha evidencia. É que se há quem veja nela uma meliante ranhosa em potência, eu auguro-lhe voos mais altos. Com estas qualidades a virem à tona em tão tenra idade, porque não olhar para ela como uma primeira-ministra de um governo do Partido Socialista ou a detentora de um império do tamanho do GES quando atingir a idade adulta?

segunda-feira, 8 de janeiro de 2018

Comparar o que só pode ter comparação

Apanhar varicela em adulto é toda uma experiência filosófica e sociológica pela qual todos deviam passar. É evidente que eu não fui bafejado por esse golpe de sorte, uma vez que ainda estou muito longe da idade adulta. Pelo menos, mentalmente. Bom, adiante... Vou falar-vos do que é ter varicela em consonância com a idade que tenho, tentar subir um patamar de maturidade e reproduzir a tal experiência
Ora, como bem devem saber, esta doença caracteriza-se, sobretudo, pelas fortes erupções cutâneas, que põe o nosso rico corpinho parecido com uma pequena Islândia (redundância, eu sei) em plena actividade vulcânica. Há de vários tipos, vários formatos e diversas formas e para mim foi impossível não as comparar com pessoas e respectivas atitudes.
- as cinderelas da festa: irrompem brutalmente, gostam de se mostrar exuberantes e fazem-se notar, mas a sua chama extingue-se rapidamente, desaparecendo tão depressa como apareceram e sem deixarem marca;
- as tímidas: são pequenitas, aparecem de mansinho sem serem notadas e tentam passar despercebidas durante a maior parte do tempo. Azar dos azares, acabam varridas sem dó nem piedade. Se ao menos se tivessem imposto enquanto era tempo...;
- as sonsas: são as primeiras a chegar e ficam bem para lá do seu tempo de actividade, chegando a irritar quem as vê sempre no mesmo sítio;
- as putonas: vêm em grupos de cinco ou seis, mantém-se no seu lugar, mas sempre tentando chamar a atenção. Quando são pressionadas, derretem-se e ficam agarradas a nós como se fossemos chineses ricos num casino;
- as chatas: aparecem, nós despachamo-las, mas quando parece que já nos livrámos delas, ressurgem com toda a força e ainda mais reluzentes.
E é isto, gente. Podemos elaborar raciocínios tão complexos e profundos a partir de uma maleita com estes contornos. Ou então não e isto foi tudo da febre...

quarta-feira, 6 de dezembro de 2017

Era multar a Nintendo!

Então, minhas nabiças de rio? Muito contentinhas ou muito enregeladinhas com este frio escandinavo? Hã? Estamos em Lisboa ou em Oslo? Pois é, pois é. Devem ter saudadinhas da praia. É por essa razão que não vou, nem que me prometam umas pantufinhas daquelas com Pêlo por dentro, contar-vos um episódio que remonta a um saudoso mês de Agosto. Ia lá eu fazer uma coisa dessas e pôr-vos a salivar por calor como eu faço quando vejo um casaquinho do Goucha... Nem pensar! Vou só buscar uma historieta passada no final de um mês de Julho, quando a temperatura do ar devia rondar os 32 graus e a da água os 24, na qual me deleitava a comer um Magnum branco, chamava depois pelo senhor das bolas de Berlim de alfarroba e tinha calçado as minhas Havaianas. Assim está bom, não está? Pronto, não quero cá melindres.
Ora, enquanto eu fazia tudo o que supra-citei, à sombra de um toldo algarvio, ia perscrutando também a vizinhança de circunstância. Á minha direita, um casal de ,meia-idade trocava considerações sobre a actualidade, aproveitando o manancial de informação que o homem tinha entre mãos. Parecendo que não, o Correio da Manhã serve para mais qualquer coisa do que limpar o rabo na ausência de papel higiénico de folha dupla.
Já à esquerda, um magote de gente agitava as areias daquela praia. Não, não há erro nenhum. Agitavam mesmo as areias porque, raios os partam ainda hoje, não paravam sossegados. Novos, velhos, crianças, mancos, carecas ou de panamá na cabeça, nenhuma daquelas almas se aquietou um segundo que fosse. Ás páginas tantas, um dos mais jovens do grupo anunciou:
- Vamos Á água!
Acto contínuo, a velha sentada na cadeira de praia ergue-se num repente (deslocando uma rótula, desconfio eu) e, num tom que insinuava a ingestão de um megafone lá por volta de 1854, dirigiu-se ao miúdo:
- Eeeeeeh! Não vão nada! Ainda estão a fazer a digestão! - avisou, para complementar logo depois com a assustadora informação - Olhem que o Miguel morreu uma vez quando foi ao mar com o comer a fazer a digestão!
O gelado estava já no final e nunca me senti tão satisfeito por fazer chegar um sorvete ao término da sua existência. Se a frase tivesse sido proferida cinco minutos antes, o delicioso Magnum tinha marchado inteiro pelas minhas narinas acima. Esta mania que a malta tem para se agarrar ao mundo dos videojogos já passou há muito dos limites. Chegámos ao ponto, imaginem só, de pensarmos que podemos morrer uma vez sem problema porque ainda temos mais quatro até perdermos o jogo, tipo Super Mario. E os mais velhos, que passam a vida a dizer aos miúdos para não estarem tanto tempo agarrados a telemóveis, consolas e computadores, são os piores de todos!

domingo, 13 de agosto de 2017

Depois da tempestade vem a bonança

A vantagem de se viver num lugar onde os sons mais característicos são o chilrear dos passarinhos e os arrotos dos sorvedores de sumo de cevada nos locais onde a sua venda se desenrola a bom ritmo é a de conseguir captar com toda a facilidade qualquer outra manifestação sonora que não seja uma das referidas.
Foi por essa razão que, na tarde de ontem, acompanhei atentamente uma discussão entre um casal meu vizinho no interior da sua residência.
A alterada conversa, com os intervenientes numa acesa troca de argumentos que recrudescia de tom a cada frase proferida, foi ganhando contornos de escândalo aldeão. Adivinhava-se o clímax, apesar de não conseguir descortinar àquela distância que contornos teria. Um prato atirado à parede? A passagem para o patamar da estalada à Pai Natal e da cabeçada à Cais do Sodré? Inspirados pelo Campeonato do Mundo que decorre, a invenção da modalidade "lançamento do cônjuge pela janela"?
Felizmente, não chegámos ao nível da despesa com loiça nem ao da fractura da cervical. O elemento masculino do casal, numa repetição cadenciada e quase harmoniosamente cantada, disse à companheira: 'vai p'ó caralho».
Dali em diante, nada mais do que se passou naquele lar foi dado a conhecer ao imenso mundo para lá das suas paredes. Volvidos cinco minutos, a porta da entrada da habitação abriu-se de rompante, ela e ele a saírem em passo apressado em direcção ao automóvel estacionado na via pública, ele a abrir a porta do condutor, ela a abrir a porta do passageiro da frente, os dois a entrarem na viatura e a deixarem o seu destino seguir nas estradas sabe o Diabo de onde.
Como referi, não tive acesso ao que foi dito após o atirar da épica ordem. Todavia, vou atrever-me a fazer um exercício de adivinhação da conversa que se seguiu e que passo agora a partilhar convosco:
- Não consigo ir sozinha. - disse ela, baixando os olhos para o chão. - Não sei o caminho.
- Não tem problema - respondeu ele de pronto, audivelmente mais calmo - Eu vou contigo e ajudo-te a chegar lá.
- Fazias isso por mim, meu amor? - quis saber ela, deixando o entusiasmo traí-la.
- Claro, querida! O que é que eu não faço por ti? - Sorriu, voltando costas e afastando-se dela - Vou só buscar o mapa e partimos logo depois!

sábado, 13 de maio de 2017

Paciência, pirralha!

Então quem é que está aí em dia de comemoração do tetra-campeão, da devoção ao... Salvador (enganei-vos bem, hã?) e da maluqueira em torno daquele senhor de saias que não é o José Castelo Branco e veio do Vaticano? Hum... Pois, não estou a ver ning... Ah, espera está ali um!... Hum, não... Afinal é só o espantalho do jardim para evitar que os pardais me comam os tomates. Ainda assim, vou escrevinhar qualquer coisa para depois do despertar do transe colectivo.
Episódios da vida quotidiana. A minha sobrinha-pirralha continua a surpreender-me a cada dia que passa. Num deles, estava a pes... perdão, a criança muito entretida nos seus afazeres, que incluíam a ordenha de uma ursa de peluche e a dedicada escovadela das crinas de um lobo ibérico de lona, quando, sem aviso, vira-se para mim e dispara:
- Tio Lápis, vou dar um peidoco!
Acto contínuo, começa a espremer-se toda, tipo laranja. O problema é que não deu "caroço#", para sua grande desilusão.
- Oh, não "funxiona"!
Para quem diz que as crianças de hoje em dia já têm tudo, aqui está a prova de que isso não é verdade a ser-lhes esfregada nas ventas. Estou em crer que, com a evolução das espécies, o ser humano nascerá com um pequeno botão ao lado do olho do cu capaz de resolver este problema de exibicionismo fracassado com que a pirralha se depara neste momento. Já não te vai ajudar, minha querida, mas as gerações futuras saberão honrar o teu esforço no presente.

segunda-feira, 8 de maio de 2017

Cantilenas de escárnio e mal-dizer à Luz

Monotemático. Estou a tornar-me monotemático. Porquê? Porque vou falar de quê? Pois claro, de gajas! Hum?! Não é hábito falar de gajas por aqui? Então vou falar de bola, que é o outro tema que os machos dominam na perfeição para além de... Pois, disso mesmo.
O Benfica apresta-se para chegar ao tetra-campeonato depois da conjugação de resultados deste fim-de-semana. Será o segundo título conquistado em dois possíveis por Rui Vitória, o que faz dele um treinador ganhador e merecedor de todos os elogios. Acontece que, sabe-se lá porquê, o sósia do Roberto Carlos em termos de locomoção ainda não conseguiu gerar consenso entre a massa adepta benfiquista. Querem ouvir esta?
Há umas semanas atrás, quando o Benfica recebeu o FC Porto em casa, regressava eu ao carro quando, a meio do percurso à pata, começo a ouvir um anónimo adepto lampião que seguia na mesma direcção. Apuro os talos e sintonizo na frequência deste belíssimo treinador de bancada com o palito ao canto da boca:
- Epá, isto é sempre a mesma merda com este gajo! Faz sempre as mesmas substituições, a equipa joga pouco e fica satisfeito com empates em casa... E ainda tinha aquela mania de andar sempre a abotoar as calças e a puxá-las para cima! Não, para mim este gajo não serve!
Pois é... O meu camarada tem toda a razão. Realmente, para se ser bom treinador um indivíduo tem de fazer muito mais que ganhar dois campeonatos de empreitada, assim à bruta. Precisa de saber pôr a equipa a jogar à maluca (mesmo que nunca ganhe nada), tem de variar nas substituições ( do tipo pôr o Júlio César a substituir o Salvio e o Rafa a trocar de lugar com o Ederson aos 5 minutos da segunda parte, só para ser engraçado) e saber compor-se na vestimenta. Psht! Que é isso?! Puxar as calças até aos sovacos e usá-las como macacão?! Não serves!
Estive quase para dizer ao indivíduo algo deste género: «Ó senhor, dê lá uma abebiazita. Na altura em que o rapaz tirou o curso de treinador, a Paula Bobone ainda não dava a disciplina de Etiqueta e Boas Maneiras. Essa só foi introduzida no programa curricular depois de perceberem que o JJ não sabia conjugar o verbo fazer na terceira pessoa do singular do pretérito mais-que-perfeito nem conseguia mascar pastilha elástica de boca fechada».
Calei-me, claro. O tempo e os cintos de pele de urso-do-pinhal-de-Leiria que o Vitória começou a usar haveriam de dar-me razão.

segunda-feira, 19 de dezembro de 2016

A mania de levar tudo à letra

Viver no meio rural pode ser absolutamente fantástico. É respirar o ar puro proveniente do arvoredo, é sentir o perfume das flores campestres, é escutar o pipilar dos passarinhos e o coaxar das rãs, é cagar um pé todo em merda de cavalo, ovelha ou porco, na eventualidade de andar distraído a apreciar as maravilhas do campo. Ah, vale mesmo a pena, acreditem.
Contudo, também existem pontos menos positivos. Por estarem mais longe dos locais onde se podem abastecer de bens de primeira necessidade, os habitantes destes meios acabam por ter maior dificuldade em adquiri-los. É neste contexto que surgem os vendedores ambulantes, vendo aqui a sua oportunidade de negócio. Padeiros, fruteiros, traficantes de droga e ar... ah, desculpem, too much information... Uh... Onde é que eu ia? Ah, sim... Todos acorrem às pequenas aldeias e lugarejos para suprir as necessidades que a população apresenta.
Um dos negociantes mais apreciados da aldeia onde vivo é o peixeiro. Rapaz educado, bem falante e despachado, o vendedor é acarinhado não só pela sua personalidade, mas também pelo que tem para oferecer aos seus clientes. Peixe fresquinho, que ele próprio escolhe na lota de Peniche, capaz de fazer os encantos até do mais guloso dos fãs de peixe-picanha e peixe-courato. Como se já não bastassem estes factos, tem ainda uma característica especial: é extremamente solícito. Tão solícito que não é capaz de se negar a parar a sua viatura fora dos locais habituais de venda quando se encontra em deslocação entre eles. Se um qualquer cliente lhe faz sinal para abrandar a marcha, pois claro está que o nosso amigo pára de imediato.
Eu próprio já tive oportunidade de testemunhar um desses exemplos de prestabilidade do senhor. Um destes dias, um dos fregueses do costume faltou à chamada do sonoro apito da carrinha numa das suas paragens habituais e já só conseguiu apanhá-lo numa outra rua mais afastada, sendo obrigado a correr a distância que os separava em modo Usain Bolt coxo. Ao ver a carrinha do vendedor, levantou o braço, dando a indicação que pretendia que este parasse. Como era expectável, o pedido foi prontamente aceite. A carrinha afrouxou até se imobilizar. Do seu interior, salta o sorridente peixeiro e exclama:
- Hoje atrasou-se, vizinho! Quase que não me apanhava!
O cliente prontificou-se a responder:
- Pois foi! Desculpe lá fazê-lo parar aqui.
- Não tem mal - respondeu o peixeiro - Estou com um bocadinho de pressa, mas tudo se arranja!
Deve ter sido essa mesma urgência que o impediu de desligar o motor da carrinha. Dirigindo-se à traseira desta, abriu as portas e mostrou ao cliente o que estava para lá delas.
Sabendo exactamente o que queria, nem hesitou no pedido.
- Olhe, arranje-me aí umas três postas de salmão. É fresquinho, não é?
- Fresquinho? Mais fresco só o Pólo Norte, homem! - disse o peixeiro, não querendo deixar margem para dúvidas - arranja-se já aqui.
Acto contínuo, agarra num exemplar da espécie com uma mão e a outra procura o cutelo para começar a retalhá-lo. Três golpes certeiros e igual número de postas ficaram ao dispor do freguês, que olhava o processo, maravilhado. Olhava e cheirava, porque o tubo de escape nunca deixou de emitir gases poluentes durante toda a manobra.
Nunca o salmão fumado o foi de forma tão evidente.

sábado, 3 de dezembro de 2016

Cuidado com a sensação de vitória antes do final da partida

Os serões em família passados em frente à televisão têm o condão de trazer paz e calma ao final de um dia stressante, mas também podem potenciar um tão acalorado debate de ideias que faz parecer o "Prós e Contras" uma troca de mimos azeitada entre um casal que iniciou uma relação amorosa há um quarto de hora. Por norma, em minha casa envereda-se pela segunda opção. Demasiada carne vermelha, dirão muitos. Eu apenas digo: o limite é o contacto físico que o árbitro possa sancionar com cartão vermelho. Até aí, vale tudo.
Ora se a pólvora anda danadinha para saltar fora do barril e entrar em auto-combustão, mais fácil fica ainda quando a discussão gira em torno de uma figura que não é consensual. A propósito do lançamento do seu novo livro, Ricardo Araújo Pereira concedeu uma entrevista a Vítor Gonçalves na RTP3, que considerei muito rica, dada a variedade de temas abordados e ao superior intelecto dos dois interlocutores. Acontece que sou o único fã de RAP aqui em casa e a manifestação de desagrado por vê-lo a ocupar espaço num canal público ganhou forma na voz da minha mãe. Podia ser na voz de Pavarotti, mas ele já morreu e tínhamos aqui um caso paranormal assustador que só poderia ser resolvido com recurso aos dons do professor Alexandrino. Assim foi melhor:
- Não gosto deste gajo. Nunca gostei.
Levantado que ficou o meu sobrolho com a observação, resolvi aprofundar a questão:
- Ah, não? Então porquê, mãe?
- Não sei... - respondeu ela com ar de desprezo, corrigindo a vagueza da primeira resposta com um peremptório... - Acho-o parvo!
- Hum... Então e qual é o humorista que aprecia? - quis eu saber.
- Olha, gosto daquele grandalhão...
Eu sabia a quem se referia, é claro, mas quis retaliar pela falta de respeito que tinha tido por um dos meus ídolos uns segundos antes:
- Quem? O Badaró? Esse já morreu, mãe...
- Não é nada o Badaró! É o... é o...
Ai quiseste achincalhar o grande RAP? Então agora vais ver como elas te trincam no lombo! Não dando margem para assomos repentinos de memória fresca que a salvassem, voltei a carregar:
- O Fernando Mendes? Esse não é grande, mãe. O cu dele é que é maior que a lua cheia, mas ele é baixito...
Já esbaforida, a minha progenitora deixa os olhos subirem para o tecto (não de uma forma literal, claro. Números de faquir não são compatíveis com senhoras habilidosas na confecção de arroz de marisco) e eu começo a esboçar aquele sorriso triunfal de quem se vê a vencer a contenda. Faltava dar a machadada final:
- Também não é esse, pois não? Ah, já sei! É de mim que gosta, não é?
A senhora dona minha mãe respira fundo e solta a revelação:
Não, filho. Também não é de ti...
Da próxima vez que se depararem com um acto que vos pareça tresloucado, perpetrado por alguém que vos pareça um genuíno psicopata, tentem não tecer juízos de valor mal amanhados. É que por detrás dessa loucura aparente pode existir um forte catalisador para a despoletar. Pode haver uma... Está quieto, Óscar! Desculpem lá, este cão anda impossível! Então não estava mesmo agora a lamber o gatilho da minha Kalashnikov? Bem... Onde é que nós íamos mesmo? Ah, sim! Malta que vocês acham parecidos com o Hannibal Lecter, não era?

quarta-feira, 16 de novembro de 2016

Uma boa argumentação é tudo!

A minha sobrinha-pirralha continua relutante em despedir-se das fraldas. Os meses vão-se passando e... nada! Continua com o rabo mais enchumaçado que os peitos de uma adolescente fã da Wonderbra. Na tentativa de solucionar o problema, que afecta a qualidade do ar num raio de três quilómetros e obriga à utilização de máscaras antipoluição por parte da população local, resolvi estabelecer um diálogo com a criança que me permitisse compreender a razão da sua teimosia:
- Ó sobrinha-pirralha, porque é que tu não fazes cocó na sanita? - perguntei eu, num tom amistoso.
A criança suspirou, num misto de enfado e tristeza:
- "poque" tenho medo.
- Medo? Medo de quê? - insisti eu.
- Do "buaco"... - replicou ela, mantendo aquele ar de quem não gosta da interpelação, mas que não tem vontade de desarmar.
- Do buraco?! Qual buraco?
- Do "buaco" da "chanita", tio Lápis Roído! - exclamou, certa de que aquele argumento era demasiado forte para ser rebatido.
- Mas medo do buraco? Porquê?
- "Poque" eu tenho medo de cair "po buaco"! - lançando o seu derradeiro trunfo, pensando que este servia para sustentar a sua crença na fraldodependência.
E servia. O que pode um adulto dizer a uma criança que tem na mente a ideia que uma bola de bowling cabe num buraco de um campo de golfe, que um São Bernardo pode enfiar-se numa gaiola para hamsters e que o ego do Mourinho pode manter-se dentro do corpo do homem? Nada. Um adulto só pode esperar que a criança cresça e que perca a mola que lhe aperta o nariz e a impede de sentir o cheiro das suas obras-primas provenientes do pequeno nalgueiro.

quarta-feira, 2 de novembro de 2016

És tu! Infinitos, pronto!

O trajecto de uma pequena criança pelo caminho das palavras e da correcta construção frásica pode ser, como já vos dei conta, muito tortuoso. Se a isso estiver associada uma cadeia de pensamentos maliciosa, imaginem o caos a instalar-se lenta e progressivamente, mas de forma assertiva e imparável.
A minha sobrinha-pirralha estava, num destes dias, muito entretida a brincar com coisas de gente graúda, como é, inequivocamente, o caso dos Pokémon, quando decide fazer algo mais apropriado para a sua idade. Pega num livro da Anita, volta-o de pernas para o ar para assim poder lê-lo melhor, senta-se numa cadeira e inicia a narrativa daquela que lhe parece ser a história perfeita:
- "Eia" uma vez... o avô foi pa' horta... a avó foi "acher Limpecha"... a mana foi pa' "escoia"... e o tio tá' a "acher" xixi!
Para quem não é entendeu, passo a traduzir: o avô está dedicado à lavoura, a avó às lides domésticas, a irmã aos estudos e o tio, para além de ser calão, é um mijão, quiçá um incontinente urinário!
Curiosidade das curiosidades, nesse mesmo dia o diabrete tinha bebido tanta água que a fralda descartável, que ainda usa, não conseguiu suster todo o líquido que a sua pequena bexiga despejou subitamente. E quem a tinha ao colo nesse preciso momento? E quem é que ficou com as calças ensopadinhas em xixi? Pois é, pois é. Resposta demasiado óbvia: foi aqui o mijão!
Por isso, minha menina, tenho uma coisa para te dizer face to face, de miúdo para miúda: quem diz é quem faz!
Haja paciência. Paciência e fraldas Lindor!

segunda-feira, 12 de setembro de 2016

Dêem à luz, seus machões!

Existem conversas que são intelectualmente elevadas, existem conversas que não são boas nem são más, mas sim uma valente merda (sinta-se cumprimentado, senhor Pedro Arroja) e depois existem as conversas que parecem oriundas de outro planeta. Neste último caso, sinto, muitas vezes, que vos escrevo a partir de Saturno e que a sala de jantar cá de casa é o palco privilegiado para extraterrestres dirimirem os seus argumentos. Não se espantem, portanto, se um destes dias se cruzarem com indivíduos de pele esverdeada a passear descontraidamente pelas ruas e avenidas das vossas aldeias, vilas e cidades. É possível que seja um dos elementos da minha família a tentar obter dados relevantes do quotidiano terrestre para alimentar as nossas conversas às refeições.
Aqui há uns anos, e quando começou a ser debatido o tema da co-adopção, o meu pai (que julgo ter saído numa dessas missões que supra-referi) dispara esta bala à hora do jantar:
- Epá, então diz que os gays querem ter filhos?
Eu, que já tinha ouvido qualquer coisa a respeito, desviei-me do trajecto do projéctil  e retorqui:
- Sim, querem adoptar. Normal.
O meu pai, não satisfeito, voltou a carregar a "arma" e tornou a premir o gatilho:
- Hum... não, não! Não foi isso que eu ouvi! Querem ter filhos biológicos!
Eu, que comecei a medir o tamanho da insanidade daquela história com uma fita métrica de dois quilómetros totalmente distendida, voltei a desviar-me do tiro. Respirando fundo, num tom ponderado e sensato (mas ainda longe daquilo que consegue, por exemplo, um Eduardo Barroso), resolvi indagar:
- Então e como é isso possível? E depois saem por onde? Pelo cu?
A minha irmã, menos avisada, foi atingida em cheio pelo balázio do meu pai. Acho que foi ainda meio atordoada pelo impacto da conversa que proferiu a brilhante frase, capaz de arrebatar o Prémio Nobel da Medicina:
- Ah, então pode ser por cesariana...
Naquela altura, senti-me como se estivesse numa qualquer favela carioca invadida pela polícia. Ele era tiros da esquerda, ela era tiros da direita e eu no meio. E o problema é que o armamento utilizado não era de pequeno calibre. Eu estava a ser torpedeado, minha gente! Torpedeado! A minha irmã, mesmo atingida pela brutalidade do tiro paterno, parecia ter gostado da sensação e também ela disparava parvoíces em tom tolinho. Que fazer? Bem, resposta simples: usar os meus básicos conhecimentos de anatomia humana, aparentemente chutados a botas de biqueira-de-aço das memórias dos meus familiares:
- Mas vocês estão malucos? Como querem vocês conceber uma criança num corpo masculino, onde não existem ovários, nem trompas, nem útero?
Silêncio. Provavelmente, um silêncio contemplativo, em homenagem à minha saúde mental (vá-se lá saber como...) ainda em perfeitas condições. O mutismo só foi quebrado uns vinte segundos mais tarde, quando a minha sobrinha levantou a inocente questão:
- Avô, tens combustível na nave? Gostava de ir dar uma voltinha à Terra...

quinta-feira, 8 de setembro de 2016

Ó mulher, anda cá que eu tenho um Anthímio de Azevedo num pé!

Cambadinha, lembram-se daquele sketch do calceteiro interpretado pelo Ricardo Araújo Pereira? Não? Azar! Também não me apetece colocá-lo aqui e, mesmo que fosse empurrado por esse impulso extraordinário de fazer coisas bonitas, vocês não merecem.
Dada que está esta lindíssima demonstração de carinho, explico o porquê de me ter lembrado da rábula do calceteiro. É que o rapaz inicia a história com «eu sou calceteiro», inspirando-me a afirmar o seguinte: eu sou um ignorante desprovido de qualquer talento especial.
Psht! Que é lá isso! Essas manápulas para lá! Não quero cá abracinhos lamechas! Pensavam que isto era um espalhanço colossal da minha autoestima? Pfff... Ainda está para chegar o dia! Trata-se apenas de uma constatação de facto (desta vez indubitável) perante o confronto do meu humilde ser com um dos magos da sapiência. É que uma pessoa tem de reconhecer as suas limitações quando se depara com grandes vultos do... do... conhecimento não-científico, chamemos-lhe assim. Atentem no relato da conversa que mantive com o meu vizinho (sim, esse mesmo que transferiu a dor do dedo martelado para outro que nada tinha) e depois digam-me se não tenho fundamentos para me sentir uma besta.
- Epá, é calor e mais calor, hã? - diz o senhor, num tom simpático que lhe é bem característico.
- É verdade! Isto tem estado que não se aguenta. A sorte é que as temperaturas agora descem cerca de 10 graus - respondi eu, alimentando o tema de conversa mais popular entre os portugueses. Logo a seguir à maledicência da política, claro.
- Ah, é? Olha, e chuva?
- Chuva? - admirei-me eu. - Acho que não há previsões para a chegada dela. Então?
O homem fez um trejeito com a boca, denunciando o incómodo da informação que se preparava para dar:
- É que estava deitado e deu-me aqui uma dor num pé...
Estive quase para lhe perguntar se não tinha deixado cair uma marreta em cima do dito, mas depois percebi que quem não conseguia abarcar toda a dimensão da inteligência daquele iluminado era eu, que a grandeza da sua sabedoria estava muito para além da minha compreensão e tive de guardar a piadola na algibeira. Não há argumento possível para contrariar um indivíduo que tem montada uma dependência do Instituto do Mar e da Atmosfera num dos chispes. A ligação entre a dor e a previsão meteorológica é de todo sustentada e não há como refutá-la. Por essa razão, pensem em galochas, gabardinas e até em botes de borracha. Vamos ter uma reedição do grande dilúvio bíblico e eu, que tive a felicidade de obter esta informação privilegiada, até já ando de braçadeiras enfiadas.
Não estou seguro que sobrevivamos a este cataclismo que o meu vizinho adivinha, mas se esse milagre acontecer, passem a dar mais importância aos sinais que o vosso corpo vos apresenta. Meninas, têm enxaquecas? É capaz de nevar em breve! «Ó Lápis, mas estamos em Setembro, que raio!», protestam vocês. Psht! Não devemos desconfiar da Natureza e dos seus sinais inequívocos! Rapazes, têm uma forte comichão nas virilhas? Isso é sinal da aproximação de um furacão de areia, categoria 5, vindo directamente do deserto da Antárctida. Ou então é micose, prova derradeira da vossa falta de higiene na genitália.
Já agora, o que quererá dizer um furúnculo no cu na relação de enfermidades com eventos meteorológicos? Hã? Não, não tenho nada disso! É um... um... filho... filho de um... de um... enteado de uma... uma uh... de uma amiga de uma conhecida de uma prima minha que emigrou para o... Zimbabué logo a seguir ao 25 de Abril. Sim, é isso. Estou preocupado com a saúde do rapaz e com o fenómeno climático a ela associado, claro! Vou falar com o meu vizinho e ver o que ele tem a dizer a respeito. Preparem-se! Temo que a previsão dê merda.

quarta-feira, 17 de agosto de 2016

Rentrée blogueira

Então, cambadinha? Já viram quem voltou? Sim, sou eu mesmo! O que é que acham deste bronze à António Costa? Muito in, não é? E vocês? Como é que se portaram na minha ausência? Destruíram essas silhuetas perfeitas (que tanto trabalho e suor vos custaram durante meses, convém relembrar) a tiros de bolas de Berlim à queima-roupa? Lavaram-se bem atrás das orelhas e na zona dos tornozelos? Costumam acumular bastante sarro, se ainda não repararam... E esses peitos? Apresentaram-se bem depilados? É claro que estou a falar convosco, meninas! Com quem haveria de ser? E esses escaldões? Hã? A apanharem-nos, espero que tenham tido o cuidado de colocar uma estrela-do-mar em cima do bandulho enquanto fritavam ao natural. Dá-vos um look de veraneante original e o "polícia da moda" vai adorar. Especialmente se forem gajos... Ele vai querer ter uma conversa muito prolongada convosco, rapazes!
Bom, agora que já fiz a minha festa do Pontal (mas em bom, claro), vamos ao que interessa. Algarve é sinónimo de quê nesta altura do ano? Glamour. Sofisticação. Espaços faustosamente decorados. Gastronomia elaborada. Certo? Seria, não fosse dar-se o caso de estarem na presença virtual de um indivíduo que gosta de contrariar a tendência natural das cenas.
Arranco da minha baiuca bem cedinho para poder almoçar já perto do local onde passei férias. Querem saber onde foi? Ok, eu digo. Foi entre Sagres e Vila Real de Santo António. Desconheciam esta minha exactidão GPS, não é? Bem, prossigamos! Uma vez lá chegado, foi preciso procurar um restaurante onde se pudesse fazer uma refeição em paz e com tranquilidade, que é coisa fácil de se encontrar nesta altura em terras algarvias. Isso e dodós. Também existem muitos de Paderne para baixo, ficam a saber. Acossados pela larica, decidimos (após um debate familiar que durou uns longuíssimos 15 segundos) entrar num estabelecimento à beira da estrada. Se tiver como referência um matadouro e o Passeio Marítimo de Algés em noite de NOS Alive, então posso referir-me àquele espaço como agradável e quase desértico. Se a isto acrescentarmos o facto de estarem certamente mais de 50 graus no seu interior, conseguem visualizar a imagem da perfeição de imediato, não conseguem?
Depois de nos sentarmos confortavelmente em cadeiras de madeira duras como os cornos, o empregado trouxe-nos o menu. Numa leitura apressada do dito, rapidamente constatamos que as iguarias eram de difícil confecção e destinadas somente a pessoas habituadas a degustarem o que de melhor existe na gastronomia portuguesa: entremeadas, febras, bifes, carapaus, sardinhas, bacalhau. Tudo assado, pois claro. Acabamos por optar por um outro prato constante da extensíssima lista que nos foi fornecida: poulet rôti. Não sabem o que é? Não espanta. Não pertencem à grand finesse, eu já sabia! Procurem no Google, que foi coisa que eu não fiz.
Terminada que estava a refeição principal, pedimos ao empregado de mesa que nos indicasse as sobremesas. Num tom tão bem-disposto que me fez lembrar a figura prazenteira de Marinho Pinto, o homem respondeu:
- Melão.
Como nos tínhamos habituado mal à variedade de opções no prato principal, resolvemos insistir:
- Ah... E mais?
- Mais nada. Só temos melão.
Ainda suspeitei que nos achasse com cara de sportinguistas e tudo não passasse de uma provocação futebolística, mas um rápido olhar pelas mesas circundantes deitou por terra essa ideia. Só havia melão mesmo. Rejeitámos a sugestão e pedimos a conta.
E foi nessa altura que se registou nova surpresa. Dois frangos e meio, 51 euros. Tão barato? Epá, se soubesse antecipadamente, tinha mandado vir uns vinte. Estes preços baixíssimos têm de ser bem aproveitados, que diabo. Para além disso, não teríamos de voltar a preocupar-nos com almoços e jantares durante o período de férias. Mais: com tanto frango no bucho, rapidamente nos nasceriam bicos entre o lábio superior e a penca. Muito útil para abrir latas de melão em calda.
Ah, não há nada como sentir que se passou por uma experiência enriquecedora... ou "enriquecedeira" dos bolsos de um algarvio!

quinta-feira, 21 de julho de 2016

São os loucos da província que nos fazem duvidar...

Para tudo existe uma boa explicação. Duvidam? Olhem o meu exemplo: eu sou doido varrido (ou lavado, se for ao dia 1 de cada mês), mas atingi esse estado porque não convivo com pessoas que "arrebanham bem".
Um vizinho meu andava a fazer qualquer coisa que requeria a utilização de um martelo. Enquanto manuseava o instrumento... pronto, eu vi logo que essas mentes perversas iam pensar noutra coisa! Não têm vergonha? Isto é um blog sério, que raio! Bem, dizia eu que ele utilizava a ferramenta (está melhor assim, está? Hum, acho que não quero saber a resposta) quando confundiu a cabeça de um dedo com a cabeça de um prego e cá vai disto. Chegou-lhe uma marretada tal que até a unha se partiu ao meio. Muito engraçado, não é? Porque não foi com vocês, seus sádicos!
Ora o período de recuperação foi algo demorado e durante esse tempo o homem andou com o dedo enrolado numa ligadura, que, de quando em vez, descobria para o molhar em água fria e assim aliviar as dores. Certo dia, estava ele entretido na tarefa já habitual quando a mulher, ao observá-lo, levanta a seguinte interrogação:
- Escuta lá, tu estás bom da cabeça?
A pergunta apanhou o marido e os restantes assistentes (eu incluído, pois então) de surpresa. O homem, com aquela cara de "what the fuck?!", fez uma careta e respondeu com outra questão:
- Então porquê?
A mulher, já mal contendo as gargalhadas e (desconfio eu) a bexiga, esclareceu-o:
- Então tu estás a molhar o dedo da mão que não tem nada e o que martelaste está seco?
Depois deste episódio, o meu vizinho não pretende abrandar o ritmo na eterna procura da inovação. Quer passar a usar as cuecas na cabeça e o chapéu para tapar o sol aos "países baixos", para além de colocar o vinho no prato e o ovo estrelado no copo. Para já, para já, ainda só calça o sapato do pé esquerdo no pé direito e o do pé direito no pé esquerdo. Afinal de contas, o caminho faz-se caminhando, não é?

sexta-feira, 8 de julho de 2016

Despenhou-se!

Este é só para homens que se barbeiam e assim conhecem os dramas de tão penoso acto. Por isso, meninas não entram! Uh... a não ser que sejam a atracção principal de um circo. Aí já podem discutir connosco. E tu também ficas de fora, Tiago Bettencourt! Primeiro aprendes o que é uma gilete e depois abres o bico a respeito. Certo? Certo!
Depois de dois dias sem o fazer, estava eu a escanhoar-me (curioso verbo este) e a pensarem questões importantes da vida (do tipo "porque é que os caranguejos andam para trás se não têm olhos naquelas nalgas de crustáceo?" e "porque é que os peixes abrem tantas vezes a boca se não dizem nada de jeito?") quando, sem aviso e vindo aparentemente de nenhures, ouço um estrondo parecido ao da queda de um drone. Nunca ouviram um drone a cair? Eu também não, mas cheira-me que não deve tardar muito e, quando acontecer, não vai diferir muito daquele som terrível.
Pas!
Ai, meu Deus! O que é isto? Sobressaltado, olho em meu redor para ver de onde vinha tão assustador estardalhaço. Nada. Não via nada de substancialmente diferente. Cada vez mais intrigado e com receio de réplicas (como nos sismos), começo a examinar com mais cuidado todos os recantos da divisão em busca do motivo daquele fandango. É então que desço os olhos para o lavatório.
Ali estava. Preto, muito preto. O que é isto? Uma barata? Um escaravelho? Pela cor do fato, o Super-Homem também não é. O que seria então? Aproximo o nariz, tipo cão de caça, e chego à aterradora conclusão.
Um tufo de pêlo!
Com o tamanho da barba que tinha e com a minha prolongada meditação acerca daqueles temas fracturantes, tinha permitido a formação de uma espécie de bola de neve composta de pelos faciais tão grande que a lâmina já não conseguia segurar, deixando que a força da gravidade fizesse o seu trabalho e se desse assim um espectacular acidente aéreo à escala da minha casa-de-banho.
O saldo foi trágico. Mortos. Muitos mortos. Para meu azar, os cabrões ressuscitaram todos e já estão encrustados de novo na minha baby face!

quarta-feira, 8 de junho de 2016

Não podiam escolher outro nome, não?

Onde é que fica o Peso da Régua? Ai, é no Norte. Ai, é por onde passa o Douro! Ai, é onde se situam as vinhas mais famosas de Portugal! Uma merda! Eu é que sei!
1991, escola primária da minha aldeia, uma manhã de chuva e os alunos todos em fila indiana para mostrarem os trabalhos de casa à professora, que era ruim como as cobras. Um dos meus colegas, burro como uma porta, aproxima-se, a medo, da mesa do demónio de saias.
- Vá, mostra lá isso!
O rapaz, hesitante, dá um passo em frente e estica o caderno onde trazia os exercícios feitos na véspera. A mulher começa a olhar para o resultado do "apurado" estudo e fixa o olhar no pobre:
- Seu burro! Tens isto mal outra vez!
Acto contínuo, deita a mão à régua, levanta-a no ar e fá-la descer rapidamente sobre a cabeça do asno de duas patas. Ora o que lhe faltava em inteligência sobrava-lhe em agilidade. Desviou-se a tempo de evitar a estrondosa pancada, num gingar de ancas digno de um dançarino profissional.
Quem é que estava logo atrás dele na fila? Quem é que não esperava a sucessão de acontecimentos conspiratórios? Quem é que não se mexeu? Quem é que levou com a régua nos cornos com tanta força que a partiu ao meio? Quem é que ainda hoje tem sequelas facilmente detectáveis ao fim de 30 segundos de conversa? Quem é que quer que aquela desgraçada daquela terra mude de nome para diminuir as implicações do seu trauma de infância?
O autor da resposta certa ganha uma régua partida ao meio, um compasso de bico ferrugento e um transferidor de 90 graus!

segunda-feira, 9 de maio de 2016

Virei a ser famoso?

Por vezes, suspeito de sofrer de um atraso mental qualquer para o qual a medicina ainda não conseguiu arranjar um nome adequado. É uma espécie de paragem cerebral, vinda do nada e que só acontece quando estou a falar com alguém na sua presença. Estou a meio de um belo discurso e, de repente, falta-me a palavra que quero dizer. Por mais que me esforce, não chego lá a tempo de evitar que o meu interlocutor ache que fui violentamente agredido na cabeça com um taco de basebol há coisa de minutos. Passo a exemplificar.
Estou muito bem a dizer que em Fátima devem ter preços diferentes para a altura das grandes... qual é a palavra? Vocês sabem, não sabem? Pois, eu também sei, mas a desgraçada desapareceu-me do registo mental, como aqueles adolescentes rebeldes que fogem a meio da noite pela janela, à socapa, sem autorização dos pais. Os segundos passam e eu continuo a procurar aquela cabra em desespero, esquadrinhando as gavetas da minha desorientada cabeça. Nesta não estás, nesta também não, e nesta?, não, não!, mas onde é que tu estás, sua galdéria? As pessoas, vendo a minha atrapalhação, começam outro tópico, tentando contornar o embaraço da situação. Sem aviso, vomito a desaparecida:
- Peregrinações!
A- Ah... sim... pois...
O tom de "devias ter dito isso antes de eu pensar que és atrasado" fica implícito e eu coleciono mais um momento anedótico da minha vida de cromo. Sei que dificilmente alguém conseguirá resolver este problema durante o tempo em que por aqui ando, mas estou pronto a doar-me à ciência para ajudar pessoas que venham a padecer do mesmo mal no futuro. Uma só condição: a doença terá de ter o meu nome!

sábado, 2 de abril de 2016

Olhares a régua e esquadro

Aqui há uns meses, estava a falar com um rapaz meu conhecido sobre cães perto de minha casa. A probabilidade de passar um cão quando ele está a falar sobre os nossos amigos peludos de quatro patas é de quase cem por cento, porque ele não sabe falar sobre mais nada e cães na minha rua estão em maior número do que os animais de cabelo de duas patas. Não foi, por isso, de admirar quando avistámos alguém acompanhado de um bicharoco ladrante. Duas miúdas (a dona e uma amiga) passeavam um portentoso pastor alemão pela trela e o rapaz teve um orgasmo psicológico quando viu o trio.
Foi ao encontro deles e pôs-se de imediato a escovar o pelo do animal à mãozada, enquanto fazia perguntas sobre ele. Às páginas tantas, o rapaz recua dois passos e olha para a miúda que segurava o cão pela trela, a dona, e continua o interrogatório com a seguinte questão:
- Então e que idade tem ele?
Pergunta banalíssima, certo? Certo! O problema é que o rapaz tem literalmente um olho no burro e outro no cigano. Não, não é por ser desconfiado, ma sim por ser estrábico. A rapariguita, ladeada pela amiga, ficou confundida pelo desalinhamento dos faróis do rapaz e pensou que ele estivesse a fazer a pergunta à acompanhante. No que pareceu um tom indignado de quem se sente ultrapassada e desautorizada, disparou, como quem atira uma pedra à fisgada:
- Ela não sabe! Quem sabe sou eu!
O rapaz não se ficou e retaliou:
- Então mas eu estou a perguntar-te a ti! Parece que és parva! Não vês que eu tenho um olho torto?
Ela viu, pois está claro que viu. Mas sabia lá ela qual dos dois olhos estava a fazer a pergunta. A conversa terminou assim, fel a querer saltar da boca do rapaz e a pequenita a ver que ia ser atingida em cheio nas ventas.
Isto é claramente uma desvantagem para quem tem um olho a apontar para Lisboa e outro para o Porto. A vantagem surge quando um gajo está na discoteca ou em outro qualquer lugar privilegiado para o engate. Pode sempre galar uma gaja que está num determinado ponto e outra que está 50 metros afastada. Mas a alegria do zarolho acaba depressa, porque nenhuma delas vai querer praticar o coito com ele em cima do capô do carro, a não ser que goste de répteis e se sinta atraída pelo seu olhar camaleónico.
A vida é dura para quem é vesgo.

quinta-feira, 31 de março de 2016

Tanta felicidade pode ser perigosa

Aqui há uns anos (os suficientes para que os meus dez neurónios sobreviventes não consigam precisar quantos), este menino passou por um sítio onde, sem razão aparente para isso, começou a ouvir o som inconfundível de algo em estado líquido a correr livremente e em quantidade abrutalhada. Não era um rio, porque os rios não correm assim pela rua (a não ser que estejamos em Veneza), não era uma cascata, porque beldades naturais dessas não existem na grande urbe,e também não era Santo António em Lisboa, tanto quanto me lembro. Por isso, não podia ser uma torrente de mijo formada pelas bexigas descontroladas da malta que confunde Casal Garcia com Água do Luso. O que seria então? Devia ser água, calculei, mas vinda de onde?
Ora, eu não sou gajo de me prender demasiado tempo com coisas que só devem interessar a especialistas em recursos hídricos que tem uma tara por água superior à do Jorge Palma por álcool. Avancei, destemido, com esta rica vistinha que Deus me deu, uns valentes três passos. Aí, sabe-se lá como, abriu-se uma cratera à minha esquerda, feita à medida da minha perna. Até parecia que um cabrão de um meteorito caído há dois segundos sem eu dar conta tinha conspirado para fazer a folha ao meu belo membro inferior. Automaticamente, percebi de onde vinha o som de líquido a correr desenfreado. Embora pareça, não sou assim tão estúpido ao ponto de não topar que a água passa debaixo do chão.
Uma senhora que por ali estava e que, não se entende bem porquê, eu não vi antes, manteve-se imóvel no seu lugar, qual estaca pregada a marretadas com ferramenta de 50 quilos, começou a falar (naquele tom monocórdico de quem se está a cagar para o assunto, mas tem que dizer qualquer coisa) e colocou a seguinte questão:
- Ah, o senhor caiu?
No meio da maravilhosa sensação de ter a perna a encharcar-se em água que parecia vinda de um cano que liga Portugal à Sibéria e da atrapalhação de quem percebe que está a dar a barraca do ano para uma mulher-calhoa, ocorreu-me dizer três coisas, exactamente por esta ordem
a) «Obrigado por me considerar um ser humano e por me tratar por senhor quando eu próprio não sei se não serei antes uma toupeira de um metro e oitenta e cinco que anda em duas patas calçadas a sapatos de vela»
b)«Não, minha senhora. Ia agora cair aqui! Eu estou é a aproveitar para tomar banho nesta água quentinha, que lá no sítio onde eu moro cortaram o abastecimento por alturas do PREC e só sabemos o que é água porque o autotanque dos bombeiros lá vai duas vezes por semana»;
c) «Mas olhe, a banheira é um bocadinho mais funda do que eu pensava e estou com dificuldade em sair daqui para ir buscar o champô de que me esqueci. Não pode dar-me uma mãozinha para isto se despachar mais depressa? É que, se calhar, há mais pessoas a quererem aproveitar esta oportunidade de se banharem gratuitamente.»
Não disse nada disto, claro, e, mais claro ainda, tive de desenmerdar-me sozinho. A custo, lá me retirei do buraco, meia-perna das calças a pingar como se tivesse sido atingido por um canhão de água do Corpo de Intervenção da PSP, e comecei a caminhar, coxeando ligeiramente. Tinha adquirido um andar novo, mas mantinha a costumeira figura de urso.
Há dias felizes, não há?