quinta-feira, 20 de outubro de 2016

"Estorce" Toni! "Estorce"!

Querem que vos conte uma história? Eh, não é preciso essa gritaria toda, pá! Vocês assim não podem ir à ópera! Já se estiverem a treinar para comentador do "Prolongamento", estão a ir muito bem. Bem, vamos lá então.
Era uma vez um rapaz chamado António, embora todos o conhecessem como Toni. O Toni era um jovem simpático, bem disposto e conciliador. Como todos os rapazes, o Toni tinha sonhos e pensou em ter um carro. Não era um carro qualquer. Era a máquina de quatro rodas que preenchia o seu imaginário desde que se lembrava de ser gente, um bólide raríssimo. Tão raro que só existia um no país, imaginem só. Acontece que esse veículo estava nas mãos de outros dois rapazes, o Pedro e o Paulo. O Pedro conduzia-o pelos caminhos que um GPS de tecnologia alemã ditava e o Paulo, no lugar do pendura, tinha o hábito de dar indicações sobre o trânsito. Por achar que o Pedro era um maçarico a conduzir, o Paulo sentia que devia intervir sempre que julgava necessário. Não tinha pejo em recorrer a medidas drásticas e, não raras vezes, deitava a mão ao volante para corrigir a trajectória do automóvel. Escusado será dizer que o ímpeto excessivo do Paulo e a aselhice do Pedro deixaram a máquina em mau estado. Ele era faróis partidos, ele era amolgadelas nos para-choques, ele era vidros rachados. Ao fim de quatro anos, o carro dos sonhos do Toni não era mais que uma lata amassada em cima de quatro rodas.
Não podendo mais conter a sua desolação sempre que via o estado do veículo que tanto queria, o Toni decidiu elaborar um plano para roubar o tão amado e, ao mesmo tempo, tão negligenciado automóvel. Percebendo que não conseguiria pôr em prática o seu plano sem ajuda, (uma vez que não tinha força suficiente para enfrentar os seus dois antagonistas), o Toni decidiu chamar dois velhos conhecidos para conseguir os seus intentos: a Catarina e o Jerónimo. Não se podiam considerar grandes amigos, visto que existia uma desconfiança entre os três. Apesar de todos caminharem pelo lado esquerdo da rua, o Toni ziguezagueava de quando em vez, o que punha os nervos em franja à Catarina (que gostava de andar num passo determinado e célere) e ao Jerónimo (que andava o mais à esquerda que podia, levando-o a embater com o ombro frequentes vezes nas caixas de correio douradas das mansões dos "porcos capitalistas"). Ainda assim, a Catarina e o Jerónimo decidiram deitar as diferenças para trás das costas e escutaram com atenção o que o Toni tinha para lhes dizer. Que tinham eles a perder? Não andavam eles a pé desde sempre? Ainda que em estado decadente, um carro erra um carro, que diabo! Melhor que andar a penantes ou deixar os rapazes marialvas a escangalharem o que faltava, ora!
Em tom conspirativo, o Toni pôs os comparsas de ocasião ao corrente da sua estratégia:
- Como sabemos, aqueles dois nabos acham que ganharam o direito de espatifar o carro durante mais quatro anos. Se não agirmos depressa, daqui a pouco não há carro para ninguém! Eles são dois, mas nós somos três e juntos somos mais fortes...
- Amor-Electro! gritou Catarina de forma eufórica.
Jerónimo, dando uma ligeira cotovelada repreendedora no braço da jovem posicionada ao seu lado, fez um sinal com a cabeça na direcção de Toni para que este prosseguisse:
- Não ligues. Ela pensa que isto é a "Roda da Sorte", do Herman José. Sempre quis ser a Ruth Rita. "Petanto", continua, se fazes favor.
Com ar trocista e irreverente, Catarina replicou:
- A "Roda da Ssorte"? Então, Jerónimo? "Deixasste" de ver "televissão" depois da queda do muro de Berlim, foi? - questionou a jovem, denunciando que era ciosa.
Toni, apercebendo-se da escalada de tensão entre os dois, resolveu intervir:
- Querem ouvir ou não?
Os dois interlocutores aquiesceram.
- Pois bem - prosseguiu Toni -, eu tenho informações seguras que me indicam que aqueles dois vão a uma festa daquelas em que só se bebe Moet & Chandon e come caviar. Escusado será dizer que os gajos vêm com um "grãozinho na asa" com o carro nas mãos. Todos sabemos que costumam estacioná-lo na Assembleia da República, não sabemos? É quando eles estiverem a fazer a manobra para arrumar o carro que nós entramos em acção. Eu abro a porta do condutor e saco o Pedro para fora e tu, Catarina, fazes o mesmo do lado do pendura. Puxas o Paulo para fora e ocupas o lugar dele. Jerónimo, tu estás um bocado para o acabado e precisas de te acomodar confortavelmente. Ficas com o banco de trás todo para ti, ok?
Jerónimo franziu o sobrolho, não estando completamente convencido:
- Então, mas se eu for sentado atrás, como é que ponho, "petanto", a cassete no rádio do carro depois de o roubarmos?
- Qual cassete, homem? - indagou Catarina, desconcertada.
- A cassete do Zeca Afonso, ora! Eu quero ouvir o "Grândola, "petanto", Vila Morena" nas viagens, que pensam vocês?! - retorquiu Jerónimo, o nervosismo a tomar conta dele de novo.
Toni, notando a agressividade a recrudescer no tom de voz do homem, tentou falar da forma mais serena que conseguiu:
- Jerónimo, o carro é moderno e já só lê ficheiros MP3 através de uma pen. As cassetes já não são usadas há muito tempo. Mas não te preocupes, todas as músicas do Zeca que quiseres pôr a tocar serão postas a tocar. A Catarina já as converteu para formato digital e vai colocá-las em reprodução assim que nos pusermos em andamento. Está bem assim?
Jerónimo hesitou por um momento, mas acabou por anuir:
- Pode, "petanto", ser.
Óptimo - disse Toni, abrindo o sorriso e preparando os seus companheiros para o que ia dizer a seguir - Como vocês sabem, aquilo está num estado lastimável e vou precisar da vossa ajuda para repará-lo em condições. Vamos precisar de bater muita chapa e consertar o que aqueles vândalos fizeram.
Sempre voluntarioso, Jerónimo disparou:
- Não há problema! "Pettanto", eu conheço um muito bom em Leninegrado, na União Soviética!
Toni respirou fundo, percebendo que contrariar o homem e dizer-lhe que a URSS já não existia não era boa ideia naquele momento. Ao mesmo tempo, o rapaz tomava consciência da dimensão do desafio que tinha em mãos enquanto Catarina ria a bandeiras despregadas.
- Ok, Jerónimo. Depois vemos isso. Vamos a eles?
- Vamos! - gritaram Catarina e Jerónimo em uníssono.
O plano foi executado segundo o estipulado por Toni, com o imprescindível auxílio de Catarina e Jerónimo. Na noite e na hora marcadas, os três tomaram de assalto a viatura, deixando Pedro e Paulo surpreendidos com o ataque. Ainda tentaram estrebuchar, mas os vapores alcoólicos e a superioridade numérica dos seus oponentes não deram chance para réplica. Tinham mesmo ficado apeados.
A muito custo, o automóvel foi reparado durante um ano. Apesar de não se encontrar em perfeitas condições, já tinha um aspecto completamente diferente. Subsistiam alguns problemas no motor, era um facto, e não andavam tão depressam quanto queriam. Nada que não consigamos resolver com mais tempo, dizia Toni aos seus coadjuvantes.
Certo dia, iam os três a bordo do automóvel quando Toni vislumbrou um lugar para estacionar. Era apertado e Toni, que tinha carta de condução há pouco tempo, estava um pouco inseguro quanto à sua capacidade para colocá-lo em tão exíguo espaço. Os seus comparsas prontificaram-se a tranquilizá-lo, dizendo-lhe que seria possível se ele seguisse as indicações que lhe iam dando. Foi Catarina a fazê-lo em primeiro lugar:
- Toni, não "tenhass" medo de te "encosstaress" à "essquerda". "Tenss" muita margem para lá. Do lado direito é que é "perigosso". "Tenss" aqui um pilar que tem a" insscrição" "Cortess" nas "penssõess" maiss baixass" e outro logo a"s seguir" que diz "Desscida" do IRC para "ass" "Multinacionaiss". Não "cheguess" o carro para aqui, "ouvisste"? Olha que "sse" "batess" "nissto", "amolgass" a lata de novo e eu já não "esstou" "maiss" para "conssertoss"! Olha para "ass" "minhas" "mãoss". Ainda "esstão" "todass" "calejadass" de bater chapa!
Jerónimo, não querendo ficar-se atrás, apontou também para a esquerda enquanto ia dizendo:
- Encosta, "petanto", deste lado à vontade, Toni. Tens aqui um passeio baixinho com "Imposto sobre Refrigerantes", "Sobretaxa no IMI sobre o património imobiliário acima dos 1,2 milhões de euros" e "Eliminação da sobretaxa no IRS". É à vontade para lá, camarada! Pode parecer apertado, mas para este lado fazes bem a manobra. "Petanto", avante!
Sabendo que as notas que ia ouvindo eram as únicas que podia seguir se quisesse manter o seu precioso bólide intacto, Toni fez o que lhe disseram. Com cuidado, conseguiu estacionar sem nenhum arranhão visível.
Satisfeitos, os três saltaram do interior da viatura e ficaram a comtemplá-la. Ah, e pensar que já lhe tinham ignobilmente chamado geringonça! Santa ignorância!
Então? Gostaram? Foi assim-assim? Muito bem, então ponham o popó novamente nas mãos do Pedro e digam que ficam com os pneus furados...

28 comentários:

  1. Eu acho que tens de pensar seriamente em explorar esta veia de outra forma, tornar o teu blog mais conhecido. Tens um talento natural para fazeres as pessoas rirem com aquilo que escreves, mas ao mesmo tempo mantendo alguma seriedade e um fundo de verdade! Consegues tocar nos temas atuais, consegues fazer um humor que é lido com gosto!
    Beijinhos

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    1. Ena, isto é que é uma massagem no ego daquelas que peço no texto da caixa de comentários :P Muito obrigado pelas tuas palavras. Na verdade, tenho esperança que o blog possa elevar-me para outro patamar. O sonho comanda a vida, já dizia o poeta :)
      Vou gostando muito do que vou fazendo por aqui e da interacção que vou tendo com pessoas incríveis como tu. É, a blogosfera tem-me dado muito nos últimos tempos :D Beijinhos

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    2. E espero que continue a dar, porque mereces! Divirto-me verdadeiramente com este humor inteligente e que tanta falta faz nos dias de hoje..
      Espero que te leve muito longe e eu estarei na primeira fila para assistir e acima de tudo, para aplaudir!
      Beijinhos

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    3. Oh, vês como continua a dar? :D Fico sempre muito contente com o facto de gostares do que vou fazendo, porque, para além de seres uma pessoa maravilhosa, tens um sentido crítico muito apurado. Por isso, sei que não desperdiças elogios em vão. Valorizo, por estas razões, tudo o que aqui vais dizendo, voltando a agradecer. Conto contigo na primeira fila! Reserva feita! :P Beijinhos

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    4. Não, nunca desperdiço os meus elogios em vão, portanto, acredita que são merecidos, até à última letra! =)
      Beijinhos

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    5. E você não poupa nas palavras bonitas :) Uma vénia a cada uma delas ;) Beijinhos

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  2. Maravilhoso texto sim. Com um refinado sentido de humor. A Chic'Ana tem toda a razão. Vá sai lá do carro e mexe-te -)

    Beijoos
    Anjinha sexy

    Prazeres e Carinhos Sexuais

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    1. Muito obrigado! :D Vocês estragam-me com mimos, farto-me de dizer. Quem sabe onde podemos chegar? :? Se o carro tiver combustível para andar, não vou a pé :P Beijinhos

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  3. Clap clap ;) muito bem! Excelente analogia :)

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    1. Só dois bateres de palmas? Só muito bem? Só excelente? Olha, minha menina, a Chic' Ana e a Maria dos Anjos foram muito mais elogiosas, se queres saber! :P Muito obrigado. Sempre um prazer escrever para leitores de primeira ;)

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    2. Bom, pelo menos a Chic'Ana e a Maria conseguiram "massajar-te o ego" o suficiente :)
      Cada um faz o que pode ;)

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    3. E quem dá aquilo que tem a mais não é obrigado, já dizia o velho Herodes! Conheces o velho Herodes? :P

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  4. Muito bem "esgalhado". Devias fazer duas cópias e enviá-las ao Jerónimo e à Catarina, que às vezes parece que se esquecem de que andar à boleia em carros com o "motor de arranque" em pior estado do que o do Futre, às vezes requer um empurrãozinho. Até porque o Toni já provou que é homem para comprar uma caixa de Libidium Fast e deixar muita gente apeada. eheheh

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    1. Obrigado, Zé! ;) O Toni não se pode esquecer também que guiar o carro pela faixa central não é boa ideia. O carro já anda o suficiente para ir pela via mais à esquerda :P

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  5. Que rico contador de histórias que temos aqui ;)

    r: Verdade, o problema é que nem sempre é fácil.

    Não entendo porque é que dizes semelhante

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    1. Rico em sonhos, mas pobre, pobre em ouro, já dizia Floribella Espancada :P Obrigado, obrigado ;)
      Digamos que não sou grande apreciador da música do rapaz, para ser simpático :P

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    2. Se tu fosses apreciador de algo de qualidade é que eu ficava surpreendida, para ser simpática ;)

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    3. Curiosamente, sou apreciador do teu blog... :P

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    4. Ai és? Então deve ser a única coisa de qualidade que aprecias :p

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    5. Será? é que, tenho de o admitir, nem sempre sou rapaz de bom gosto :P

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  6. Depois de soltar uma boas gargalhadas, louvo a tua imaginação e talento para escrever obras de ficção, um tudo nada semelhantes à realidade.:))
    Se me permitires, sugeria que metesses este «guião» numa pastinha e procurasses o cineasta António-Pedro Vasconcelos.
    Isto é ouro puro, rapaz! Nem devias de o ter publicado. Há que ter cuidado com os plágios. Pode estar aqui a futura Palma d'Ouro. Isto para agora, no futuro viriam os Oscares de Hollywood, ou lá o que é!
    Já vejo as letras de néon a piscar, sobre a entrada das melhores salas de Cinema do país e arredores: "O Calhambeque Renascido" obra da autoria de Lápis Roído....Que dizes?

    Beijinhos divertidos da Maria.

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    1. Sempre este poço de simpatia, esta Maria! :D Muito obrigado por mais um cargueiro de elogios! :P Devo aqui deixar bem patente a minha satisfação por atingir os objectivos a que me propus quando comecei com esta brincadeira: lançar charme às raparigas :P Mentira. Queria mesmo arrancar umas gargalhadas ao meu distinto público e, pelos vistos, vou conseguindo :)
      Se temos isto na mão de António Pedro Vasconcelos, todos adivinhamos a quem vai ser atribuído o papel de Catarina. Soraia Chaves, pois claro. Quem mais poderia ser? Ele não conhece outra :P
      É preciso cuidado com os plágios. dom Pipoco, doutora Palmier e outros tantos já viram os seus preciosos textos copiados para páginas de Facebook sem a devida autorização. Ainda não tenho essa importância toda, mas o seguro morreu de velho, não é verdade? Vou começar a registar tudo na SPA :P
      O título do futuro filme parece-me perfeito! Quanto queres pelos direitos de autor? É só para veres que, para além de talentoso, ainda sou um rapaz sério e honesto! :P
      Beijinhos, Maria. Um bom fim-de-semana para ti! ;)

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    1. Eu? Ah, os elogios não páram! :P Muito obrigado :P

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  8. Uau! Cada vez gosto mais de ti pá. :))

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    1. :D Já tenho ali um esboço da dedicatória que te farei quando me pedires um autógrafo :P Muito obrigado pelo carinho :)

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  9. Genial, tu és genial pah!!! Qualquer pessoa minimamente sensível e inteligente percebe o teu enorme talento. Não tenho dúvidas que vais ser ainda maior, desde que te "conheci" que percebi que vais muito longe!! Tens que partilhar a tua inteligência, perspicácia, sentido de humor... és grande!!
    Vai limpar a baba que já deve ter inundado a tua casa toda, não, o bairro :p

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    1. Elaaaaah! Isto é coisa para emoldurar e espetar na parede do quarto! Naqueles dias em que acordar com os pés frios, o cabelo desgrenhado e não me apetecer pentear, vou lá e dou-lhe um beijinho. Sim, Lápis, tu és grande porque Miss DC assim decretou! =P
      Muito obrigado, darling. Se lá chegar, tenho já uma dedicatória na qual te incluo. Dois segundos, assim na loucura =P

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Se vêm para contestar, fiquem quietinhos e caladinhos. Isto não é minimamente democrático e quem manda aqui sou eu! Por isso, só são permitidos afagamentos de ego, mas com jeitinho! Demasiada fricção deixa-me o pelo eriçado, tipo gato assanhado. Não é bonito!