quinta-feira, 31 de março de 2016

Tanta felicidade pode ser perigosa

Aqui há uns anos (os suficientes para que os meus dez neurónios sobreviventes não consigam precisar quantos), este menino passou por um sítio onde, sem razão aparente para isso, começou a ouvir o som inconfundível de algo em estado líquido a correr livremente e em quantidade abrutalhada. Não era um rio, porque os rios não correm assim pela rua (a não ser que estejamos em Veneza), não era uma cascata, porque beldades naturais dessas não existem na grande urbe,e também não era Santo António em Lisboa, tanto quanto me lembro. Por isso, não podia ser uma torrente de mijo formada pelas bexigas descontroladas da malta que confunde Casal Garcia com Água do Luso. O que seria então? Devia ser água, calculei, mas vinda de onde?
Ora, eu não sou gajo de me prender demasiado tempo com coisas que só devem interessar a especialistas em recursos hídricos que tem uma tara por água superior à do Jorge Palma por álcool. Avancei, destemido, com esta rica vistinha que Deus me deu, uns valentes três passos. Aí, sabe-se lá como, abriu-se uma cratera à minha esquerda, feita à medida da minha perna. Até parecia que um cabrão de um meteorito caído há dois segundos sem eu dar conta tinha conspirado para fazer a folha ao meu belo membro inferior. Automaticamente, percebi de onde vinha o som de líquido a correr desenfreado. Embora pareça, não sou assim tão estúpido ao ponto de não topar que a água passa debaixo do chão.
Uma senhora que por ali estava e que, não se entende bem porquê, eu não vi antes, manteve-se imóvel no seu lugar, qual estaca pregada a marretadas com ferramenta de 50 quilos, começou a falar (naquele tom monocórdico de quem se está a cagar para o assunto, mas tem que dizer qualquer coisa) e colocou a seguinte questão:
- Ah, o senhor caiu?
No meio da maravilhosa sensação de ter a perna a encharcar-se em água que parecia vinda de um cano que liga Portugal à Sibéria e da atrapalhação de quem percebe que está a dar a barraca do ano para uma mulher-calhoa, ocorreu-me dizer três coisas, exactamente por esta ordem
a) «Obrigado por me considerar um ser humano e por me tratar por senhor quando eu próprio não sei se não serei antes uma toupeira de um metro e oitenta e cinco que anda em duas patas calçadas a sapatos de vela»
b)«Não, minha senhora. Ia agora cair aqui! Eu estou é a aproveitar para tomar banho nesta água quentinha, que lá no sítio onde eu moro cortaram o abastecimento por alturas do PREC e só sabemos o que é água porque o autotanque dos bombeiros lá vai duas vezes por semana»;
c) «Mas olhe, a banheira é um bocadinho mais funda do que eu pensava e estou com dificuldade em sair daqui para ir buscar o champô de que me esqueci. Não pode dar-me uma mãozinha para isto se despachar mais depressa? É que, se calhar, há mais pessoas a quererem aproveitar esta oportunidade de se banharem gratuitamente.»
Não disse nada disto, claro, e, mais claro ainda, tive de desenmerdar-me sozinho. A custo, lá me retirei do buraco, meia-perna das calças a pingar como se tivesse sido atingido por um canhão de água do Corpo de Intervenção da PSP, e comecei a caminhar, coxeando ligeiramente. Tinha adquirido um andar novo, mas mantinha a costumeira figura de urso.
Há dias felizes, não há?

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