Em Portugal, as coisas funcionam deste modo: surge uma notícia relacionada com um certo e determinado tema e, acto contínuo, aparecem vinte idênticas. Ora deixa cá ir à sacola dos temas manhosos para ver se não é assim. Remexe, remexe, remexe e saca o papelito... Que é que temos aqui? Oh, que inopinado! Violência de género!
Depois do caso envolvendo lá o coiso desembargador do tribunal do Porto, surge agora uma notícia em que o adúltero ainda foi agressor. Ou seja "cagou fora do penico" e ainda "deu com o piaçaba" nas ventas de quem lhe ralhou.
Feita a introdução escatológica (que devem ter adorado, certamente), passo a contar o sucedido. Pedro Mantorras,, ex-coxo do Benfica, está a ser acusado de violência doméstica pela mulher, que, alegadamente, apanhou nos queixos daquele que em tempos foi conhecido como "a alegria do povo". O acto de violência foi levado a cabo após a mulher ter confrontado o angolano com a descoberta de uma relação extra-conjugal.
Desta vez, e só para variar, vou fazer o papel de advogado do Diabo. Não pode ser de outra maneira quando tenho na minha posse informações de inegável fidedignidade. O que aconteceu foi o seguinte: Mantorras chegou a casa e foi de imediato acusado pela mulher de lhe andar a colocar umas "orelhas de osso". Até aqui tudo certo. O que foi omitido do relato do episódio foi um pormaior e que nos faz ter compaixão pelo rapaz. A mulher tinha um íman de grande magnetismo numa mão e um desaparafusador na outra. Era assim que planeava vingar-se: atrair Mantorras pelo joelho com o íman e, em seguida, tirar-lhe os parafusos todos à bruta, deixando-o aleijadinho para todo o sempre.
Eu percebo-te, Pedro. Foi em legítima defesa da tua (pouca) integridade física.
Cavalos aos tiros, homens aos coices, anões pernaltas e gigantes atarracados. Sem filtro, sem juízo, muita parvoíce e pouca graça. Aqui ninguém vem ao engano!
quinta-feira, 26 de outubro de 2017
terça-feira, 24 de outubro de 2017
Também posso ser juiz? Posso, posso, posso?
Um acórdão do juiz desembargador do Tribunal da Relação do Porto está a incendiar Portugal. Fosse isto dito há semana e meia atrás e já se tinha percebido a origem de mais de 500 focos de incêndio florestal num só dia. Assim, permanecemos na douta ignorância.
Voltando à "vaca fria" (ou quente, dependendo sempre do ponto de vista), o acórdão é referente à pena aplicada a dois homens que agrediram violentamente uma mulher, usando um objecto tão inofensivo como uma moca com pregos. A razão? Ora bem, o enxerto de mocada deve-se ao adultério cometido pela mulher.
Usando o argumento da defesa da honra, Neto de Moura (não confundir com neto de múmia, ainda que isso possa ser uma grande tentação em virtude do atraso civilizacional que o homem possui, que se refere ao Código Penal de 1886 como um documento escrito «ainda não há muito tempo») aplicou pena suspensa aos dois homens (ex-marido e ex-amante da senhora), referindo-se ainda ao adultério como um crime punido com lapidação em algumas sociedades.
Tem razão, senhor doutor. Nessas mesmas sociedades, quem mete a mão onde não deve também fica sem ela. Ora, se cá se aplicasse a mesma pena a quem mexe no que não deve, o senhor ganhava direito a colocar um gancho no lugar da manápula, que já teria ido ao ar. Seria o castigo por ter pegado na caneta para escrever tanta alarvidade num só acórdão, um objecto perigosíssimo quando na posse de um javardo mental e próximo de um garrafão de tinto.
Voltando à "vaca fria" (ou quente, dependendo sempre do ponto de vista), o acórdão é referente à pena aplicada a dois homens que agrediram violentamente uma mulher, usando um objecto tão inofensivo como uma moca com pregos. A razão? Ora bem, o enxerto de mocada deve-se ao adultério cometido pela mulher.
Usando o argumento da defesa da honra, Neto de Moura (não confundir com neto de múmia, ainda que isso possa ser uma grande tentação em virtude do atraso civilizacional que o homem possui, que se refere ao Código Penal de 1886 como um documento escrito «ainda não há muito tempo») aplicou pena suspensa aos dois homens (ex-marido e ex-amante da senhora), referindo-se ainda ao adultério como um crime punido com lapidação em algumas sociedades.
Tem razão, senhor doutor. Nessas mesmas sociedades, quem mete a mão onde não deve também fica sem ela. Ora, se cá se aplicasse a mesma pena a quem mexe no que não deve, o senhor ganhava direito a colocar um gancho no lugar da manápula, que já teria ido ao ar. Seria o castigo por ter pegado na caneta para escrever tanta alarvidade num só acórdão, um objecto perigosíssimo quando na posse de um javardo mental e próximo de um garrafão de tinto.
segunda-feira, 23 de outubro de 2017
Discriminando quem merece
A Organização Mundial de Saúde (OMS) revogou a decisão da nomeação de Robert Mugabe, presidente do Zimbabué, para o lugar de embaixador da Boa Vontade da organização. A decisão surge depois da escolha do ditador africano ter sido fortemente contestada pela comunidade internacional.
Felizmente, a OMS emendou a mão a tempo de evitar um escândalo diplomático. Escolheu Marine Le Pen para o lugar que seria de Mugabe.
Felizmente, a OMS emendou a mão a tempo de evitar um escândalo diplomático. Escolheu Marine Le Pen para o lugar que seria de Mugabe.
sábado, 21 de outubro de 2017
Pânico no aeroporto
Já ouviram falar no efeito placebo? Aquele em que algo sugere um benefício à vossa mente e vocês pensam que estão a adquiri-lo automaticamente? Ou seja, a prova provada que estão mais passados dos cornos que o Zé Maria do Big Brother? Sabem? Então, esqueçam. Não vou falar dessa merda porque isso não interessa a ninguém!
Aqui há uns anos, uns valentes, fui despedir-me de uma pessoa ao aeroporto. Cheguei cedo, talvez uma hora antes do embarque. Gosto de chegar antecipadamente aos locais para não ser surpreendido por nenhuma conspiração das estrelas para me virar os planos do avesso. Temperatura agradável, um bonito dia de sol em Lisboa, manhã relativamente tranquila naquela zona da cidade. Portanto, tudo para correr bem, certo? Errado! Estamos a falar de mim, é preciso lembrar?
Acabadinho de assentar os cascos nas imediações da infraestrutura aeroportuária, permaneço um bom bocado a apreciar a azáfama de uma das grandes portas de entrada na capital: turistas, taxistas, movimento intenso de carros, o normal. Por ali estava, já a ganhar raízes, quando o telemóvel tocou:
- 'Tou? Então? Onde estás?
- Estou aqui fora, à espera.
Hum, então estás aqui fora? Mas não te vi chegar... Devia estar distraído, não importa. Não deves estar longe de mim, digo eu. Começo a rodar o pescoço para a esquerda e para a direita, tipo radar. Não a via. Mau, temos bonecos!
- Cá fora? Mas não te estou a ver.
- Então mas estás onde?
- Estou cá fora também...
- Então não podes estar no mesmo sítio que eu!
Oh, a rapariga está parva! Como é que não estávamos no mesmo sítio? Então isto não é o Aeroporto de Lisboa? Então não estamos cá fora? Então isto não está cheio de taxistas desejosos de chupar uns euros a mais aos camones para estourar no Intendente esta noite? Que raio de conclusão vinha a ser aquela? Teimoso como um burro como consigo ser, insisti:
- Então não estamos? Temos que estar! Não estás cá em baixo?
A resposta do outro lado da linha quase me arrancou o nariz de tão violenta que foi:
- Cá em baixo onde? Eu estou é cá em cima!
Todos já passámos por isto pelo menos uma vez na vida. Aquela sensação do "eish!, está tudo fodido a partir deste momento!". Porque é que ninguém me avisou que existia uma plataforma para embarcar e outra para desembarcar e que elas não se encontram uma ao lado da outra? Olha que merda, não tenho de saber tudo! Passo aqui todos os dias, mas nunca parei, também não trabalho aqui e não penso em atacar esta porcaria à bomba para lhe conhecer todos os cantos. Tentei mostrar-me o mais calmo que conseguia perante a adversidade. Estava num local desconhecido, provavelmente bastante longe da pessoa de quem me vinha despedir e o tempo começava a pressionar-me. Basicamente, tudo engatado. Mas gajo que é gajo nunca se encolhe e vai à procura da solução, nem que seja preciso inventá-la.
- Aí em cima? Então espera aí que eu não tardo a chegar!
botão de desligar a chamada pressionado, telemóvel no bolso para não me chateares mais a marmita até eu chegar e vá de me pôr a andar em passo apressado na direcção que me parecia a correcta. Vocês já estão a pensar: enganou-se, claro! E depois riem-se muito e gozam comigo. Mas agora quem goza com vocês por terem a mania que são espertalhões sou eu! Não estava nada enganado! Tinha que seguir pela direita e foi pela direita que fui! Percebi que era o único caminho que podia percorrer se não queria voltar para casa a pé. À medida que ia avançando ia igualmente tentando vislumbrar um acesso que me permitisse atingir o patamar cimeiro. Umas escadas, um elevador, um teleférico, uma cabine de teletransporte, uma merda qualquer! Eu quero é chegar lá a cima e depressa, senão a rapariga vai-se embora no avião e eu não a vejo! Mas nada, não via nada!
A esta altura já o Sol estava encoberto por nuvens cinzentas. Estava montado o cenário perfeito para mais um momento de desgraça na minha vida. Prestes a assumir a humilhante derrota, pus a mão ao bolso para retirar o telemóvel e fazer a chamada que não tinha coragem de fazer. O tempo estava a esgotar-se e não havia forma de dar volta à situação. Tinha de lhe dizer que partisse, que eu era um banana e que não via forma de contornar a situação.
É nessa altura que surge à minha frente um homem vindo sabe Deus (no caso de existir) de onde. Não sei qual é a aparência dos anjos (no caso de existirem), mas naquela altura tinha a certeza que era a de um homem franzino de meia-idade.
- Olhe, desculpe! Como é que eu chego ao balcão das partidas?
O homem apontou com o polegar para trás das costas:
- É só subir estas escadas e depois virar à sua direita. São mais ou menos trezentos metros a partir daí.
Olhei por cima do ombro do senhor, queixo caído. Estavam ali umas escadas? Tinha-me esquecido de desligar o "toupeira mode", é evidente. Agradeci ao homem, já que tinha acabado de me salvar a vida... ou começado a destrui-la...
Pausa dramática na narrativa. Já ouviram falar no efeito borboleta? Aquela teoria que defende a interligação à escala universal, onde um bater de asas de uma borboleta aqui desencadeia uma tempestade monstra na China? Vá, burricos, não tenham medo de assumir a vossa fraqueza cultural e preparem-se para uma demonstração prática desta teoria!
Galgo a escadaria de dois em dois, viro à direita quando chego ao final e largo a correr à maluca, passada larga, estilo Usain Bolt, mas em branco, numa corrida para a glória. Tinha percorrido os primeiros cem metros quando aconteceu. Vindo sabe o raio que o parta de onde, surge um carrinho de transporte de bagagens mesmo à minha frente. Aquele filho da puta era o Chucky dos carrinhos de bagagens, juro-vos! Ganhou vida e atravessou-se à minha frente para me tramar. Vi-o a tempo de não tropeçar nele e voar dez metros em frente, mas não consegui evitar pôr-lhe um pé em cima. Nao voei dez metros para a frente, mas voei dois para o lado direito. Palhaçada das grandes, digna de figurar nos tralhos do ano em Portugal. Aterro em cima da minha anca direita e sinto uma dor que facilmente entregaria ao melhor dos meus amigos. Sim, porque coisas destas são oportunidades maravilhosas para demonstrarmos o quão altruístas conseguimos ser.
Ponho-me em pé sem soltar um ai que fosse e olho para a perna. Hum, partida não estás. Senão, estavas mais empenada que a do Roberto Carlos. Siga o Baile! Faltam duzentos metros e ninguém viu!
Reinicio a corrida, agora num estilo Mantorras, e começo a ver a entrada da plataforma das partidas. Lá estava ela, a ver-me correr que nem um louco (um louco coxo) e com um ar de quem estava com vontade de encarar comigo a murro. Diplomático como sou, comecei a sorrir pouco antes de chegar perto dela e limitei-me a dizer:
- Porra, quase que não chegava cá, hã?
Abracei-a e ficámos ali por uns momentos. Senti então um dedo tocar-me no ombro. Desfaço o abraço e volto-me para ver o que se passava. Tinha agora à minha frente um agente da PSP com ar de poucos amigos a medir-me de alto a baixo:
- Então você atirou um carrinho contra a lateral de um autocarro e fugiu?
Afinal alguém tinha visto o malho olímpico e, sim, sim, o Chucky-trolley, aquele cabrão, ainda não estava contente por me ter feito dar três piruetas no ar e quase deixar-me aleijadinho. Pela explicação do polícia, aquele corno tinha saído desembestado debaixo do meu pé é e ido espetar-se no autocarro ali parado. Expliquei-lhe que vinha atrasado e que continuei a correr sem querer saber de mais nada, mas que assumia a responsabilidade do sucedido. O homem viu sinceridade na minha cara de parvo e deu-me instruções para permanecer ali, pois teria de ser identificado se o autocarro tivesse algum dano.
Efeito borboleta, remember? Quanto custaria a brincadeira de ter pisado aquela alma danada de ferro e rodinhas? Já me via a limpar sarjetas como trabalho comunitário quando o agente voltou e disse que, para minha sorte, não havia nenhuma amolgadela na chapa robusta do autocarro.
- Teve sorte. Se fosse um carro...
Se fosse um carro, não, homem! Foi mesmo um carro! Ou melhor uma amostra de carro frustrado por não ser mais do que isso! Daquela espécie de bicho que só anda aí para dar cabo dos cornos às pessoas! Era isso que ele era!
Dali a pouco tive de me despedir da jovem. Partiu, com a noção plena que deixava para trás um cromo que colecionava episódios embaraçosos na vida, como aqueles colecionadores que nunca se cansam de ter mais e mais Mont Blanc, mais e mais Ferrari ou mais e mais... carrinhos de transporte de bagagens.
Aqui há uns anos, uns valentes, fui despedir-me de uma pessoa ao aeroporto. Cheguei cedo, talvez uma hora antes do embarque. Gosto de chegar antecipadamente aos locais para não ser surpreendido por nenhuma conspiração das estrelas para me virar os planos do avesso. Temperatura agradável, um bonito dia de sol em Lisboa, manhã relativamente tranquila naquela zona da cidade. Portanto, tudo para correr bem, certo? Errado! Estamos a falar de mim, é preciso lembrar?
Acabadinho de assentar os cascos nas imediações da infraestrutura aeroportuária, permaneço um bom bocado a apreciar a azáfama de uma das grandes portas de entrada na capital: turistas, taxistas, movimento intenso de carros, o normal. Por ali estava, já a ganhar raízes, quando o telemóvel tocou:
- 'Tou? Então? Onde estás?
- Estou aqui fora, à espera.
Hum, então estás aqui fora? Mas não te vi chegar... Devia estar distraído, não importa. Não deves estar longe de mim, digo eu. Começo a rodar o pescoço para a esquerda e para a direita, tipo radar. Não a via. Mau, temos bonecos!
- Cá fora? Mas não te estou a ver.
- Então mas estás onde?
- Estou cá fora também...
- Então não podes estar no mesmo sítio que eu!
Oh, a rapariga está parva! Como é que não estávamos no mesmo sítio? Então isto não é o Aeroporto de Lisboa? Então não estamos cá fora? Então isto não está cheio de taxistas desejosos de chupar uns euros a mais aos camones para estourar no Intendente esta noite? Que raio de conclusão vinha a ser aquela? Teimoso como um burro como consigo ser, insisti:
- Então não estamos? Temos que estar! Não estás cá em baixo?
A resposta do outro lado da linha quase me arrancou o nariz de tão violenta que foi:
- Cá em baixo onde? Eu estou é cá em cima!
Todos já passámos por isto pelo menos uma vez na vida. Aquela sensação do "eish!, está tudo fodido a partir deste momento!". Porque é que ninguém me avisou que existia uma plataforma para embarcar e outra para desembarcar e que elas não se encontram uma ao lado da outra? Olha que merda, não tenho de saber tudo! Passo aqui todos os dias, mas nunca parei, também não trabalho aqui e não penso em atacar esta porcaria à bomba para lhe conhecer todos os cantos. Tentei mostrar-me o mais calmo que conseguia perante a adversidade. Estava num local desconhecido, provavelmente bastante longe da pessoa de quem me vinha despedir e o tempo começava a pressionar-me. Basicamente, tudo engatado. Mas gajo que é gajo nunca se encolhe e vai à procura da solução, nem que seja preciso inventá-la.
- Aí em cima? Então espera aí que eu não tardo a chegar!
botão de desligar a chamada pressionado, telemóvel no bolso para não me chateares mais a marmita até eu chegar e vá de me pôr a andar em passo apressado na direcção que me parecia a correcta. Vocês já estão a pensar: enganou-se, claro! E depois riem-se muito e gozam comigo. Mas agora quem goza com vocês por terem a mania que são espertalhões sou eu! Não estava nada enganado! Tinha que seguir pela direita e foi pela direita que fui! Percebi que era o único caminho que podia percorrer se não queria voltar para casa a pé. À medida que ia avançando ia igualmente tentando vislumbrar um acesso que me permitisse atingir o patamar cimeiro. Umas escadas, um elevador, um teleférico, uma cabine de teletransporte, uma merda qualquer! Eu quero é chegar lá a cima e depressa, senão a rapariga vai-se embora no avião e eu não a vejo! Mas nada, não via nada!
A esta altura já o Sol estava encoberto por nuvens cinzentas. Estava montado o cenário perfeito para mais um momento de desgraça na minha vida. Prestes a assumir a humilhante derrota, pus a mão ao bolso para retirar o telemóvel e fazer a chamada que não tinha coragem de fazer. O tempo estava a esgotar-se e não havia forma de dar volta à situação. Tinha de lhe dizer que partisse, que eu era um banana e que não via forma de contornar a situação.
É nessa altura que surge à minha frente um homem vindo sabe Deus (no caso de existir) de onde. Não sei qual é a aparência dos anjos (no caso de existirem), mas naquela altura tinha a certeza que era a de um homem franzino de meia-idade.
- Olhe, desculpe! Como é que eu chego ao balcão das partidas?
O homem apontou com o polegar para trás das costas:
- É só subir estas escadas e depois virar à sua direita. São mais ou menos trezentos metros a partir daí.
Olhei por cima do ombro do senhor, queixo caído. Estavam ali umas escadas? Tinha-me esquecido de desligar o "toupeira mode", é evidente. Agradeci ao homem, já que tinha acabado de me salvar a vida... ou começado a destrui-la...
Pausa dramática na narrativa. Já ouviram falar no efeito borboleta? Aquela teoria que defende a interligação à escala universal, onde um bater de asas de uma borboleta aqui desencadeia uma tempestade monstra na China? Vá, burricos, não tenham medo de assumir a vossa fraqueza cultural e preparem-se para uma demonstração prática desta teoria!
Galgo a escadaria de dois em dois, viro à direita quando chego ao final e largo a correr à maluca, passada larga, estilo Usain Bolt, mas em branco, numa corrida para a glória. Tinha percorrido os primeiros cem metros quando aconteceu. Vindo sabe o raio que o parta de onde, surge um carrinho de transporte de bagagens mesmo à minha frente. Aquele filho da puta era o Chucky dos carrinhos de bagagens, juro-vos! Ganhou vida e atravessou-se à minha frente para me tramar. Vi-o a tempo de não tropeçar nele e voar dez metros em frente, mas não consegui evitar pôr-lhe um pé em cima. Nao voei dez metros para a frente, mas voei dois para o lado direito. Palhaçada das grandes, digna de figurar nos tralhos do ano em Portugal. Aterro em cima da minha anca direita e sinto uma dor que facilmente entregaria ao melhor dos meus amigos. Sim, porque coisas destas são oportunidades maravilhosas para demonstrarmos o quão altruístas conseguimos ser.
Ponho-me em pé sem soltar um ai que fosse e olho para a perna. Hum, partida não estás. Senão, estavas mais empenada que a do Roberto Carlos. Siga o Baile! Faltam duzentos metros e ninguém viu!
Reinicio a corrida, agora num estilo Mantorras, e começo a ver a entrada da plataforma das partidas. Lá estava ela, a ver-me correr que nem um louco (um louco coxo) e com um ar de quem estava com vontade de encarar comigo a murro. Diplomático como sou, comecei a sorrir pouco antes de chegar perto dela e limitei-me a dizer:
- Porra, quase que não chegava cá, hã?
Abracei-a e ficámos ali por uns momentos. Senti então um dedo tocar-me no ombro. Desfaço o abraço e volto-me para ver o que se passava. Tinha agora à minha frente um agente da PSP com ar de poucos amigos a medir-me de alto a baixo:
- Então você atirou um carrinho contra a lateral de um autocarro e fugiu?
Afinal alguém tinha visto o malho olímpico e, sim, sim, o Chucky-trolley, aquele cabrão, ainda não estava contente por me ter feito dar três piruetas no ar e quase deixar-me aleijadinho. Pela explicação do polícia, aquele corno tinha saído desembestado debaixo do meu pé é e ido espetar-se no autocarro ali parado. Expliquei-lhe que vinha atrasado e que continuei a correr sem querer saber de mais nada, mas que assumia a responsabilidade do sucedido. O homem viu sinceridade na minha cara de parvo e deu-me instruções para permanecer ali, pois teria de ser identificado se o autocarro tivesse algum dano.
Efeito borboleta, remember? Quanto custaria a brincadeira de ter pisado aquela alma danada de ferro e rodinhas? Já me via a limpar sarjetas como trabalho comunitário quando o agente voltou e disse que, para minha sorte, não havia nenhuma amolgadela na chapa robusta do autocarro.
- Teve sorte. Se fosse um carro...
Se fosse um carro, não, homem! Foi mesmo um carro! Ou melhor uma amostra de carro frustrado por não ser mais do que isso! Daquela espécie de bicho que só anda aí para dar cabo dos cornos às pessoas! Era isso que ele era!
Dali a pouco tive de me despedir da jovem. Partiu, com a noção plena que deixava para trás um cromo que colecionava episódios embaraçosos na vida, como aqueles colecionadores que nunca se cansam de ter mais e mais Mont Blanc, mais e mais Ferrari ou mais e mais... carrinhos de transporte de bagagens.
quinta-feira, 19 de outubro de 2017
Investigação profissional
À hora a que vos escrevo, a Polícia Judiciária está a fazer buscas no Estádio da Luz e em casa de Pedro Guerra no âmbito do caso dos e-mails. Em causa está um alegado esquema de corrupção que supostamente beneficiou o Benfica nos últimos anos.
Estando a mexer em computadores e, por conseguinte, a probabilidade de lerem isto ser altíssima, quero dar-vos um conselho, senhores inspectores: procurem bem atrás das orelhas do Luís Filipe Vieira e no umbigo do Pedro Guerra. São locais capazes de albergar uns três portáteis, doze discos externos e para aí umas quarenta e duas pens com as provas que tanto anseiam encontrar.
Estando a mexer em computadores e, por conseguinte, a probabilidade de lerem isto ser altíssima, quero dar-vos um conselho, senhores inspectores: procurem bem atrás das orelhas do Luís Filipe Vieira e no umbigo do Pedro Guerra. São locais capazes de albergar uns três portáteis, doze discos externos e para aí umas quarenta e duas pens com as provas que tanto anseiam encontrar.
quarta-feira, 18 de outubro de 2017
Já pode ir, minha senhora!
Constança Urbano de Sousa apresentou finalmente a demissão. A ministra da Administração Interna, cujo mandato ficará irremediavelmente manchado pelas mais de cem mortes registadas em incêndios florestais neste ano, terá chegado à inevitável conclusão de que não tinha condições para continuar a exercer funções e António Costa aceitou o pedido de demissão.
Poderá, por fim, ter as férias que não teve durante o Verão. Segundo consegui apurar, a ministra demissionária quererá ir para um lugar onde ninguém a encontre e onde possa assim evitar ser incomodada por interpelações indesejadas.
Para conseguir esse desiderato, já entrou em contacto com o SIRESP. Constança espera conseguir obter a informação sobre o local para onde este se desloca de quando em vez sem deixar rasto e no qual permanece incontactável. Segundo se sabe, SIRESP voltou a deslocar-se para este local desconhecido no último domingo.
Poderá, por fim, ter as férias que não teve durante o Verão. Segundo consegui apurar, a ministra demissionária quererá ir para um lugar onde ninguém a encontre e onde possa assim evitar ser incomodada por interpelações indesejadas.
Para conseguir esse desiderato, já entrou em contacto com o SIRESP. Constança espera conseguir obter a informação sobre o local para onde este se desloca de quando em vez sem deixar rasto e no qual permanece incontactável. Segundo se sabe, SIRESP voltou a deslocar-se para este local desconhecido no último domingo.
terça-feira, 17 de outubro de 2017
Que não lhe falte nada, minha senhora!
Perante nova desgraça humana provocada pelos incêndios florestais, a pressão sobre o Governo aumenta a cada dia que passa. No "olho do furacão" está Constança Urbano de Sousa, a ministra da Administração Interna, a quem são atribuídas responsabilidades directas ou indirectas nos erros ao combate aos incêndios, que resultaram em mais de 100 mortos e numa área ardida que deve tornar-se record.
Os pedidos de demissão da ministra intensificaram-se e choveram de todas as partes após esta ter declarado que seria muito mais fácil desistir agora e ter as férias que não teve neste Verão do que continuar no lugar para o qual foi escolhida por António Costa.
Ao ouvirem estas declarações, os responsáveis pela gestão da praia fluvial de Castanheira de Pêra ofereceram uma estadia de uma semana com direito a uma espreguiçadeira de pregos e bar aberto, anunciando ainda que querem muito que prove uma bebida caseira feita à base de amoníaco e ácido muriático.
Os pedidos de demissão da ministra intensificaram-se e choveram de todas as partes após esta ter declarado que seria muito mais fácil desistir agora e ter as férias que não teve neste Verão do que continuar no lugar para o qual foi escolhida por António Costa.
Ao ouvirem estas declarações, os responsáveis pela gestão da praia fluvial de Castanheira de Pêra ofereceram uma estadia de uma semana com direito a uma espreguiçadeira de pregos e bar aberto, anunciando ainda que querem muito que prove uma bebida caseira feita à base de amoníaco e ácido muriático.
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